terça-feira, 21 de maio de 2013

Notícias de um Futuro Próximo


           





            São quase quatro horas da manhã e não consigo dormir. A minha ansiedade e a alta temperatura incomodam tanto que a forte medicação receitada não funciona.

            Fico com vontade de ligar para Raquel e avisá-la que amanhã vou conseguir a viagem, mas ao mesmo tempo iria preocupá-la à toa... Quem telefona para alguém numa hora dessas? Devia relaxar e tentar dormir, mas está absurdamente quente.

            O futuro é assim: quente e abafado. A bala alojada na minha cabeça incomoda... Parece machucar meu cérebro toda vez que deito sobre o travesseiro.

            Estamos no ano de 2094 e ele é incrivelmente quente. O céu ficou vermelho a quase cinco décadas, as chuvas são raras e a marginalização é gigantesca. Anos atrás fui baleado na cabeça ao reagir durante um assalto e, desde então, tenho terríveis enxaquecas durante a noite. Logo após este trágico acidente realizei a inscrição para concorrer à viagem no tempo. O projeto da viagem iniciou apenas para fins científicos e os únicos que realizavam a viagem eram androides. Com o passar do tempo e após diversas discussões os humanos também começaram a realizar a viagem pelo tempo obedecendo a seguinte regra: humanos poderiam viajar para o passado e androides viajariam para o futuro. Mesmo com uma incrível tecnologia nas nossas mãos ainda existia muito receio em se mandar pessoas para um futuro ainda incerto e desconhecido e, neste caso, androides seriam muito mais capacitados a sobreviver num possível ambiente hostil.

             No dia 3 de fevereiro de 2093 houve o anúncio de que as viagens ao passado estavam sendo permitidas para todos os humanos que pudessem arcar com o alto preço ou em casos de doenças ou riscos à saúde. O comunicado foi transmitido pelo presidente dos Grandes Estados Unidos da América (a décadas atrás todos os países da América do Sul, do Norte e América Central se unificaram a um pedido do atual presidente americano junto a ONU).

            Mesmo se pagando ou tendo a aprovação do governo para a tal viagem ainda seria necessário seguir certas instruções. Não pode e nunca haveria a possiblidade de mudanças radicais em eventos ocorridos no passado... Pensaria como exemplo num possível assassinato de Hitler ainda criança ou ainda termos a chance de viajar para uma época bem distante e salvarmos um homem de ser torturado e crucificado na cruz por assassinos judeus. Eventos ou ações grandes geram reações ainda maiores (segundo a opinião dos nossos grandes líderes mundiais) e, em razão disso, tais eventos eram condenados pelas autoridades.

            Para cada caso seria registrado um número de protocolo, cada número indicaria o evento ou situação a ser corrigida ou evitada. Acidentes envolvendo atropelamentos, brigas e assaltos começaram a aparecer em massa nos protocolos abertos e o meu também se enquadrava nessa situação.

            Não demorou muito para me retornarem com a aprovação para a viagem. A felicidade de muitos em receberem tal documento era um alívio pra mim. Era a chance de voltar no tempo e evitar um assalto e, por consequência, uma bala presa na cabeça para o resto da vida.     

            Uma cápsula alojada no crânio realmente incomoda. Dá uma sensação de estar solta e passeando pelo meu corpo. Levanto da cama e vou até a cozinha. Pego uma garrafa de uísque e encho o copo até derramá-lo pela mesa. A bala rasga meu cérebro toda vez olho para baixo. Bebo aquele uísque devagar. Aquele líquido vai queimando minha garganta e, por breves segundos, minha cabeça pára de doer. Sei que a bebida é um alívio temporário... A solução definitiva virá apenas depois da viagem.

            Vou até a janela e observo as ruas silenciosas e vazias. O toque de recolher é feito às 20:00 e quando enxergamos algum vulto na ruas depois desse horário ou é um assaltante ou um androide fazendo a ronda.

            Confiro o relógio na parede: são 4:47 da manhã. Penso em assistir algo na TV, mas já faz muito tempo que não passa algo que presta na programação aberta. Grandes empresas farmacêuticas e redes de fast-food compraram praticamente todos os canais abertos e agora somos obrigados a assistir comerciais ridículos o dia inteiro ou pagar para se obter o download de um filme ou programa (os preços variam pelo tempo de duração... Gênero e classificação etária são irrelevantes).

            O futuro é realmente quente. A própria tecnologia nos castigou por termos ferrado com o planeta e agora precisamos pagar caro para termos algum tipo de lazer (inclusive sexo seguro).

            Cato meu antigo violão escondido debaixo da cama e tento arranhar alguns blues antigos, mas a bala volta a rasgar minha cabeça. Vou novamente até a cozinha e termino com o uísque que havia ficado na garrafa.

            Decido tomar um banho e iniciar os preparativos para a viagem ao passado. Assim que saio do banheiro pego o celular e mando uma mensagem para Raquel.

            A bala não incomoda mais... A medicação e aquele uísque barato começaram a fazer efeito juntos. Vou até a janela do quarto esperando uma resposta no celular. Já está amanhecendo e muito em breve estarei de volta ao passado. Tento ver algum rosto conhecido pela janela, mas ainda não há pessoas vagando na rua. Apenas um sol vermelho ensanguentando uma cidade que acorda.


Marcio Chacon

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