quinta-feira, 30 de abril de 2015

A Coisa





A Coisa

                Subo as escadas do velho farol com dificuldade. Meu estômago ainda dói ao tentar realizar a digestão do macarrão congelado de Helena.  Sei muito bem dentro de mim que não é o macarrão o principal motivo dos meus aborrecimentos.  Helena me pegou desprevenido com o divórcio. Achei que, depois de cessado todas as malditas reformas no farol, as coisas iriam melhorar. Sei que contribuí para uma situação turbulenta em casa, mas não pensei que a coisa estivesse tão séria assim.

                Talvez Helena esteja certa... Talvez eu esteja levando meu trabalho a sério demais. Eu prometi a Hugo que faria esta reforma o mais rápido possível.  Éramos três quando a reforma teve início. Bruno sumiu quando a filha do açougueiro apareceu grávida e Carlos está em casa devido a uma gripe interminável. 
 
                Já perdi a conta de quantos dias estou sozinho neste farol e para piorar ando assustado demais.  Isso desde a noite retrasada... Desde que o barulho começou.  Não é um barulho comum e tenho certeza que não é nenhuma embarcação se aproximando, pois o radar não localiza nada ao redor do farol. Ele não é alto, mas é constante. Como se fosse a respiração de alguma coisa bem próxima a mim. O barulho me perturba, me assusta realmente. Sei que não existem monstros marinhos, mas desde ontem coloquei cadeado nas duas entradas do velho farol e tenho permanecido armado até o momento de ir embora.  Não sei se uma velha pistola 22 totalmente enferrujada pode ser considerada como arma, mas veio parte do pacote de equipamentos de segurança disponibilizados por Hugo.

                Confiro a hora no relógio... Hora da primeira ronda. Além da reforma me coube também a árdua tarefa da segurança do farol. Rio sozinho imaginando o que bandidos iriam querer levar deste lugar esquecido por Deus. Eu caminho por um amontoado de lixo durante todos os dias. Talvez a única coisa que valha alguma coisa seja o velho 22 enferrujado.

                A parte difícil durante a ronda é entrar e sair da sala do radar. O apoio lateral da escada se soltou da parede e, caso perca o equilíbrio na escada, minha queda pode ser fatal. Ao entrar na sala o barulho volta a me atacar violentamente. Está mais alto do que na noite anterior e parece vir acima da sala onde estou.  Ao acessar a escada me deparo com um enorme vulto saltando para o mar. Corro direto para o radar e acabo derrubando um extintor de incêndio. Não cogito a possibilidade de guardá-lo e confirmo na escura tela do radar que não há nada a quilômetros de distância. O vulto era grande demais para ser um homem e tinha que ter aparecido no maldito radar. Impossível ser minha mente pregando uma peça. 

Minhas mãos tremem. Não consigo encher um copo de café sem derramá-lo pela mesa. Volto a checar o radar e nada aparece em nossas águas, mas quase imediatamente o barulho volta a me atacar ainda mais forte e desta vez vindo do portão de entrada. Saco minha arma, corro em direção à entrada e tento identificar um vulto batendo no portão:
                - Carlos? O que diabos está fazendo aqui a essa hora?
                - Eu que pergunto, Wellington. Já faz mais de 10 dias que você não volta pra casa. Sua esposa me pediu para vir aqui perguntar o que está havendo?  O pessoal da ilha anda comentando que você enlouqueceu depois do divórcio.
                - Como sabe disso? Eu falei com Helena ontem. Tenho certeza que vamos reverter isso. Nós ainda nos amamos.
                - Meu amigo... Você precisa de ajuda. Ficou trabalhando neste maldito farol tempo demais. Concentrou-se de maneira um tanto doentia em reformas intermináveis. Se não está pintando uma parede passa o resto do tempo tenta localizar no radar alguma coisa que gera um barulho que somente você escuta. Esqueça esse lixo de farol, esqueça monstros imaginários e vamos para casa agora.
            -  Eu não estou louco, Carlos! Se você ou Bruno tivessem ajudado a reforma já estaria pronta.
            - É uma pena pensar assim, Wellington. Sabe muito bem que me ausentei por motivos de doença, mas estou me recuperando.
           - Então sugiro que vá embora! Para que realmente se cure!

      Saio do portão e deixo Carlos falando sozinho. Subo as escadas apressado e pensando nas palavras daquele homem. Sei que não estou louco. Quando estou a alguns metros da entrada enxergo o vulto sair de dentro do mar e ir em direção ao farol. Saco a arma e corro em direção ao monstro. Quando consigo me aproximar dou três tiros naquela coisa que corre para dentro da sala do radar. Escuto os berros de Carlos de longe juntamente com o barulho do monstro. Alcanço a escada e confiro a arma: ainda tenho quatro balas... Deve ser suficiente para matar a coisa. Subo os degraus com cuidado. Sinto a respiração do monstro cada mais mais perto e Carlos continua berrando lá embaixo. 

         Quando finalmente chego na sala os gritos de outra pessoa me desconcentram... Ao virar meu corpo para enxergar Helena no portão acabo pisando em falso e caio de uma altura quase fatal. Sinto uma dor absurda ao atingir o chão e não consigo mexer meu corpo. Percebo que Helena se aproxima chorando juntamente com Carlos e alguns policiais. Um deles pede que desliguem a sirene da viatura policial. O barulho diminui drasticamente quando a mesma é desligada. Mantenho os olhos fixos para o velho farol e observo aquele misterioso vulto se evaporando, desaparecendo juntamente com a noite. Uma ambulância chega e os policiais me colocam deitado numa maca dentro dela. Não consigo falar, não consigo mexer meu corpo, mas percebo que Helena vai junto comigo dentro da ambulância. Escuto a voz de Carlos tentando confortá-la e aos poucos começo a ter uma sensação estranha passeando pelo meu corpo. É como se estivesse levitando. Não sinto medo... Muito pelo contrário a sensação é até agradável e o barulho da coisa está bem baixo agora... Quase nada.



Escrito por Marcio Chacon (30/04/2015)

Um comentário:

  1. Muito bom, lembra um pouco daqueles contos de horror de Edgar Allan Poe.

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