quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sólidos Pensamentos





Sólidos Pensamentos
Cristiano Silva



Eu em meu recanto mais pacato


Na ausência de um amor


Fico horas admirando a paisagem


Marcas dos dias que vão com minha paz.


Na chegada noturna

Sólidos pensamentos em temor

Um pesadelo me atormenta de passagem

Fico em transe imaginando uma viagem

E ao meu redor um novo mundo se faz.


Intolerante como a luz clara escura da lua

Que ilumina as sombras espectrais

Vultos aterrorizam em minha retina

Adrenalina, opio, morfina, loucura

Gritos súbitos do perigo de um monstro atroz.


Que aterroriza a todos

Na passagem para a realidade

Quando a umbra se desfaz

E volto à realidade.


Com as mãos manchadas de sangue

Pedaços expostos em todos lugares

A sensação da monstruosidade

Que habita no íntimo de cada ser.



terça-feira, 19 de junho de 2012

A Estagiária




A Estagiária
Márcio Chacon

        A sala estava lotada de gente. Os funcionários se espremiam nas paredes com seus pratos plásticos esperando uma fatia do tão disputado bolo de aniversário. O serviço iria ser paralisado por cerca de 30 minutos... Um intervalo irrelevante afinal era o aniversário do chefe. Homem bom, diga-se de passagem. Sujeito sério e de poucas palavras, mas dono de um coração grande. Tempos atrás vencera uma forte disputa contra homens que agora estavam ali alegres e o felicitando. Em poucos minutos a secretária ingressou na sala trazendo o bolo sendo seguida pela nova estagiária que trazia as bebidas. O chefe então fez um comentário sobre a roupa nova de sua secretária e gerou a risada de todos com exceção da compenetrada estagiária que enchia os copos dos convidados de maneira cirúrgica. Após o bolo estar todo nas mãos dos funcionários foi a vez da estagiária entrar em ação e servir suco e refrigerante a todos na sala... Em especial ao aniversariante do dia. Antes de saciar a sede aquele homem pensou em algo bacana para dizer a seus funcionários... Algo digno de um líder para seus subornados. Estava prestes a realizar um grande discurso quando sua secretária esbarrou sem querer nas suas costas fazendo-o derramar sua bebida em cima da pobre estagiária. Por alguns segundos todos ficaram sérios esperando o pedido de desculpas do seu chefe todo sem graça. Ele fez questão de ajudá-la a secar sua blusa e ainda brincou dizendo que iria aumentar o valor do seu salário para comprar roupas novas. Outras piadas foram surgindo e aos poucos o incidente foi passando despercebido. Todos na sala riam sem parar... Principalmente a precavida estagiária que havia guardado bastante veneno e teria muitas outras oportunidades para matar seu chefe.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Pesadelo



O Pesadelo
Nei Moreira


Acordei assustado com o vento frio que atravessava o quarto. Levantei para ir ao
banheiro quando vejo a janela do apartamento aberta.  Fui em sua direção para
fechá-la e pisei em algo gelado e viscoso. Observei que
cobria boa parte da sala e o sofá estava afastado da janela. Olhei em volta e
não reconhecia o lugar, os quadros, o sofá e os tapetas não pertenciam ao
meu apartamento. Curioso olho atrás do sofá e encontro alguém caído...  O que pisei era
sangue. Nisso um barulho no corredor chama a atenção. Alguém bate na porta e percebo
forçá-la para entrar. Escuto alguém dizer:
- Tenho a chave, não precisa arrombar.
Com a adrenalina tomando conta, os policiais entram no apartamento e me cercam. Não consigo falar nada, não consigo raciocinar. Não me lembro de nada da noite anterior, pois não me lembro de entrar naquele apartamento. O suor toma conta do rosto e começo a tremer de nervoso. Um policial me algema e me leva para fora do apartamento. Quando atravesso a porta o relógio desperta anunciando a hora de acordar. Ainda bem... Foi só um pesadelo.



sexta-feira, 27 de abril de 2012

Na Parada do Ônibus



Na Parada do Ônibus
Nei Moreira


Cheguei à parada, o ônibus demorava mais que o de costume, apareceu um vendedor de balas pedindo uma ajuda, cheguei a colocar a mão no bolso, porém lembrei que só tinha as moedas para voltar para casa. Distante uma menina se aproximava aparentando uns 12 ou 13 anos. Carregava umas dez ou doze garrafas de água de 5 litros vazias às costas, cantarolava e valseava ao som do vento cortante, observei melhor e vi que a camisa deveria ser da irmã menor e as calças eram de dois ou três números a mais, calçava um tênis que mal cabia nos pés, mas estava feliz, radiante, talvez por ter conseguido as garrafas, talvez por ir cedo para casa, mas estava eufórica.

O meu ônibus chegou, fui o primeiro a entrar, sentei à janela e observei novamente a menina cantarolando, feliz. O ônibus começou a se afastar e com a imagem da menina na mente divagando onde estará a minha inocência, a minha despreocupação, por onde andará a minha felicidade. Dormi.



quinta-feira, 26 de abril de 2012

O Paraguaio



O Paraguaio
Márcio Chacon


            Conferi o relógio pela quinta vez desde que entrei no carro. Eram quase seis da manhã. Sempre gostei de trabalhar sozinho... Somente em casos especiais precisei solicitar ajuda.
            Normalmente os alvos estão sozinhos ou acompanhados de uma pessoa no máximo. Hoje era o típico serviço que iria precisar de ajuda. Gomes não soube informar com precisão o número de pessoas presentes com o alvo, mas seriam em torno de quatro.
           Tive contato com o meu parceiro de serviço dois dias atrás e ficara preocupado com o que vira, pois o homem era bastante velho, mancava de uma perna e era de poucas palavras. O pouco que falava era para praticar um portunhol até certo ponto irritante. Seu nome era Pedro Vargas e havia fugido do Paraguai para fixar residência no sul do país a alguns anos atrás.
          Contudo a problemática da comunicação não era a causa da minha preocupação. O que me preocupava realmente era saber se poderia contar realmente com a ajuda dele para aquele serviço. Como aquele velho seria em ação? Que arma ele usaria? Seria capaz de ser rápido numa possível troca de tiro? Gomes também não me dera mais detalhes sobre o paraguaio... Apenas a certeza de que era o homem certo para me ajudar no serviço.
         Antes de conferir o relógio novamente alguém bate no vidro no carro. Abro a porta e comprimento meu novo colega:
        - Bom dia, Vargas.
        O paraguaio sorri, mas não diz nada. Senta com certa dificuldade. Ajeitar a perna dentro do carro parece ser uma tarefa dolorida... Quase impossível. Assim que ele consegue uma posição confortável dentro do veículo partimos em direção ao nosso alvo.
       Ficamos poucos minutos em silêncio. O paraguaio tira um maço de cigarros e começa a fitar meus olhos... Em seguida vem a pergunta:
       - Importa?
       - O quê?
       - Te importas se fumar no seu carro?
       - Claro que não.
       O lado bom daquela pergunta era o início de um diálogo durante o trajeto. Talvez descobrir como aquele homem trabalhava e, principalmente, se já havia feito algo parecido antes:
       - A quanto tempo atua nesse ramo?
       - Mucho tiempo.
       As palavras e o aspecto inofensivo daquele velho enchiam ainda mais minha cabeça de dúvidas. Como poderia um homem daqueles ser um matador? O que diabos ele poderia fazer quando chegássemos no local? Tentei ainda manter a conversa ativa e quem sabe obter mais alguma informação sobre meu parceiro.
         - O que Gomes te passou sobre nosso alvo?
         O velho deu uma longa tragada naquele cigarro fedorento e então respondeu:
         - Se trata de um banqueiro, correto?
        - Correto.
        - Sabe o que teremos que fazer quando chegarmos lá?
        - O procedimento de sempre. Você fará a abordagem inicial e eu cuidarei do resto.
        Conferi mais uma vez o relógio antes de estacionar o carro em frente a uma praça ainda deserta. Olhei ao redor e não havia ninguém... Consequentemente nenhuma testemunha. Voltei a dialogar com Vargas:
       - O alvo sairá da casa amarela e vai caminhar pela praça até a cafeteria. Provavelmente deverá estar acompanhado de no máximo três seguranças.
       O paraguaio dá uma longa tragada naquele cigarro fedorento e então responde:
      - Tranquilo.
       O cigarro e aquela calmaria começavam a me irritar, mas não poderia discutir com um parceiro antes do serviço. Não seria uma atitude profissional e também não teria muito tempo para brigar com aquele velho, pois nosso alvo acabara de sair de casa acompanhado de dois seguranças.
        Vargas imediatamente joga o cigarro fora e fala algo que jamais ouvira de parceiro algum:
       - Espere cinco minutos e deixe o motor ligado.
       - O quê?
      - Não precisamos esperar ele dar a volta na praça. São apenas dois seguranças... Eu cuido de tudo, hombre.
        Confesso que não sabia o que dizer naquela hora. Apenas o observo abrir a porta e sair do carro de uma maneira lenta, dolorida e resmungando algo do tipo:
      - Mierda de banco!
        Faço o que o paraguaio me pede... Deixo o carro ligado e fico a sua espera.
       Vargas começa a se aproximar do alvo que está sentado num banco da praça. Seus dois seguranças percebem a chegada de Vargas, mas não dão muito importância para aquele velho caminhando com certa dificuldade.
       Começo a entender o plano dele: Chegará mais perto de maneira inofensiva e provalvemente mate os seguranças primeiro para depois matar o banqueiro. Se esse era o plano parecia estar dando certo... Vargas se arrastava até a direção do alvo e aqueles homens não davam importância alguma para a sua presença.
        Aquilo poderia funcionar... Realmente daria certo até Vargas tropeçar e cair no chão. A queda é tão forte que solta seu maço de cigarros longe. Seu plano estava arruinado... Tudo estava perdido. Pensei em acelerar o carro e ir até eles, mas estava paralisado vendo aquela cena. Um dos seguranças foi tentar levantar Vargas enquanto o banqueiro juntava seu maço de cigarros. Quando o paraguaio já estava de pé o nosso alvo sorriu e lhe entregou seu cigarro. Foi então que aquele velho puxou um revólver pela manga e deu dois disparos tão rápidos que ouvi apenas um. Nosso alvo e um dos seguranças já estavam no chão. O outro segurança que o acudira tentou sacar sua arma e levou um tiro no rosto. Vargas dá alguns passos em direção ao banqueiro ferido e dá mais três disparos, recolhe seu cigarro e caminha lentamente até o carro.
         Não espero ele fechar a porta e acelero o veículo para sumir dali o mais rápido possível. O plano daquele velho funcionara. Sua aparência inofensiva serve apenas como disfarce para um diabo de saque rápido.
        Dirigimos cerca de trinta minutos até chegar a um estacionamento onde trocamos de veículo. Não conversamos durante o trajeto. O silêncio prevalece até voltarmos ao mesmo local onde buscara Vargas.
       Estaciono o veículo e confiro mais uma vez o relógio... São sete e meia da manhã.
      - O tempo voa.
     Vargas acende outro cigarro, abre a porta do carro e antes de descer diz:
     - Você é um pouco nervoso, mas é um bom parceiro.
    Sorrio e digo o mesmo para aquele velho que antes de descer briga novamente com o banco do carro. Lentamente ele desce do veículo e vai se arrastando pela rua até dobrar numa esquina e desaparecer.
     Ligo o carro e sigo o caminho de casa. Fico imaginando o dia de ter uma nova oportunidade de trabalhar com ele. Independente do cigarro fedorento e das poucas palavras eu estava realmente disposto a aprender mais com aquele homem que acabara de ganhar meu respeito e roubar minha alma.