sexta-feira, 27 de abril de 2012

Na Parada do Ônibus



Na Parada do Ônibus
Nei Moreira


Cheguei à parada, o ônibus demorava mais que o de costume, apareceu um vendedor de balas pedindo uma ajuda, cheguei a colocar a mão no bolso, porém lembrei que só tinha as moedas para voltar para casa. Distante uma menina se aproximava aparentando uns 12 ou 13 anos. Carregava umas dez ou doze garrafas de água de 5 litros vazias às costas, cantarolava e valseava ao som do vento cortante, observei melhor e vi que a camisa deveria ser da irmã menor e as calças eram de dois ou três números a mais, calçava um tênis que mal cabia nos pés, mas estava feliz, radiante, talvez por ter conseguido as garrafas, talvez por ir cedo para casa, mas estava eufórica.

O meu ônibus chegou, fui o primeiro a entrar, sentei à janela e observei novamente a menina cantarolando, feliz. O ônibus começou a se afastar e com a imagem da menina na mente divagando onde estará a minha inocência, a minha despreocupação, por onde andará a minha felicidade. Dormi.



quinta-feira, 26 de abril de 2012

O Paraguaio



O Paraguaio
Márcio Chacon


            Conferi o relógio pela quinta vez desde que entrei no carro. Eram quase seis da manhã. Sempre gostei de trabalhar sozinho... Somente em casos especiais precisei solicitar ajuda.
            Normalmente os alvos estão sozinhos ou acompanhados de uma pessoa no máximo. Hoje era o típico serviço que iria precisar de ajuda. Gomes não soube informar com precisão o número de pessoas presentes com o alvo, mas seriam em torno de quatro.
           Tive contato com o meu parceiro de serviço dois dias atrás e ficara preocupado com o que vira, pois o homem era bastante velho, mancava de uma perna e era de poucas palavras. O pouco que falava era para praticar um portunhol até certo ponto irritante. Seu nome era Pedro Vargas e havia fugido do Paraguai para fixar residência no sul do país a alguns anos atrás.
          Contudo a problemática da comunicação não era a causa da minha preocupação. O que me preocupava realmente era saber se poderia contar realmente com a ajuda dele para aquele serviço. Como aquele velho seria em ação? Que arma ele usaria? Seria capaz de ser rápido numa possível troca de tiro? Gomes também não me dera mais detalhes sobre o paraguaio... Apenas a certeza de que era o homem certo para me ajudar no serviço.
         Antes de conferir o relógio novamente alguém bate no vidro no carro. Abro a porta e comprimento meu novo colega:
        - Bom dia, Vargas.
        O paraguaio sorri, mas não diz nada. Senta com certa dificuldade. Ajeitar a perna dentro do carro parece ser uma tarefa dolorida... Quase impossível. Assim que ele consegue uma posição confortável dentro do veículo partimos em direção ao nosso alvo.
       Ficamos poucos minutos em silêncio. O paraguaio tira um maço de cigarros e começa a fitar meus olhos... Em seguida vem a pergunta:
       - Importa?
       - O quê?
       - Te importas se fumar no seu carro?
       - Claro que não.
       O lado bom daquela pergunta era o início de um diálogo durante o trajeto. Talvez descobrir como aquele homem trabalhava e, principalmente, se já havia feito algo parecido antes:
       - A quanto tempo atua nesse ramo?
       - Mucho tiempo.
       As palavras e o aspecto inofensivo daquele velho enchiam ainda mais minha cabeça de dúvidas. Como poderia um homem daqueles ser um matador? O que diabos ele poderia fazer quando chegássemos no local? Tentei ainda manter a conversa ativa e quem sabe obter mais alguma informação sobre meu parceiro.
         - O que Gomes te passou sobre nosso alvo?
         O velho deu uma longa tragada naquele cigarro fedorento e então respondeu:
         - Se trata de um banqueiro, correto?
        - Correto.
        - Sabe o que teremos que fazer quando chegarmos lá?
        - O procedimento de sempre. Você fará a abordagem inicial e eu cuidarei do resto.
        Conferi mais uma vez o relógio antes de estacionar o carro em frente a uma praça ainda deserta. Olhei ao redor e não havia ninguém... Consequentemente nenhuma testemunha. Voltei a dialogar com Vargas:
       - O alvo sairá da casa amarela e vai caminhar pela praça até a cafeteria. Provavelmente deverá estar acompanhado de no máximo três seguranças.
       O paraguaio dá uma longa tragada naquele cigarro fedorento e então responde:
      - Tranquilo.
       O cigarro e aquela calmaria começavam a me irritar, mas não poderia discutir com um parceiro antes do serviço. Não seria uma atitude profissional e também não teria muito tempo para brigar com aquele velho, pois nosso alvo acabara de sair de casa acompanhado de dois seguranças.
        Vargas imediatamente joga o cigarro fora e fala algo que jamais ouvira de parceiro algum:
       - Espere cinco minutos e deixe o motor ligado.
       - O quê?
      - Não precisamos esperar ele dar a volta na praça. São apenas dois seguranças... Eu cuido de tudo, hombre.
        Confesso que não sabia o que dizer naquela hora. Apenas o observo abrir a porta e sair do carro de uma maneira lenta, dolorida e resmungando algo do tipo:
      - Mierda de banco!
        Faço o que o paraguaio me pede... Deixo o carro ligado e fico a sua espera.
       Vargas começa a se aproximar do alvo que está sentado num banco da praça. Seus dois seguranças percebem a chegada de Vargas, mas não dão muito importância para aquele velho caminhando com certa dificuldade.
       Começo a entender o plano dele: Chegará mais perto de maneira inofensiva e provalvemente mate os seguranças primeiro para depois matar o banqueiro. Se esse era o plano parecia estar dando certo... Vargas se arrastava até a direção do alvo e aqueles homens não davam importância alguma para a sua presença.
        Aquilo poderia funcionar... Realmente daria certo até Vargas tropeçar e cair no chão. A queda é tão forte que solta seu maço de cigarros longe. Seu plano estava arruinado... Tudo estava perdido. Pensei em acelerar o carro e ir até eles, mas estava paralisado vendo aquela cena. Um dos seguranças foi tentar levantar Vargas enquanto o banqueiro juntava seu maço de cigarros. Quando o paraguaio já estava de pé o nosso alvo sorriu e lhe entregou seu cigarro. Foi então que aquele velho puxou um revólver pela manga e deu dois disparos tão rápidos que ouvi apenas um. Nosso alvo e um dos seguranças já estavam no chão. O outro segurança que o acudira tentou sacar sua arma e levou um tiro no rosto. Vargas dá alguns passos em direção ao banqueiro ferido e dá mais três disparos, recolhe seu cigarro e caminha lentamente até o carro.
         Não espero ele fechar a porta e acelero o veículo para sumir dali o mais rápido possível. O plano daquele velho funcionara. Sua aparência inofensiva serve apenas como disfarce para um diabo de saque rápido.
        Dirigimos cerca de trinta minutos até chegar a um estacionamento onde trocamos de veículo. Não conversamos durante o trajeto. O silêncio prevalece até voltarmos ao mesmo local onde buscara Vargas.
       Estaciono o veículo e confiro mais uma vez o relógio... São sete e meia da manhã.
      - O tempo voa.
     Vargas acende outro cigarro, abre a porta do carro e antes de descer diz:
     - Você é um pouco nervoso, mas é um bom parceiro.
    Sorrio e digo o mesmo para aquele velho que antes de descer briga novamente com o banco do carro. Lentamente ele desce do veículo e vai se arrastando pela rua até dobrar numa esquina e desaparecer.
     Ligo o carro e sigo o caminho de casa. Fico imaginando o dia de ter uma nova oportunidade de trabalhar com ele. Independente do cigarro fedorento e das poucas palavras eu estava realmente disposto a aprender mais com aquele homem que acabara de ganhar meu respeito e roubar minha alma.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O Lateral



O Lateral
Márcio Chacon


O dia está abafado, quente e o sol cada vez mais assassino. Meu preparador físico continua puxando o ritmo da fila de maneira acelerada. Não precisava estar fritando e correndo em volta do gramado, mas é isso o que ganho por reclamar a reserva em público. Virei a maçã podre do grupo e agora meu castigo é um maldito sol quente.

Eu sou o melhor lateral direito do país. Já fui um dos melhores do mundo. Já joguei na Europa e até na Ásia. Já joguei embaixo de neve onde quase não sentia mais o pé quando chutava a bola. Não preciso provar a mais ninguém do que sou capaz e não me arrependo de ter reclamado do técnico publicamente. Meu problema não é o técnico... Na verdade meu único problema no momento chama-se Marcão.

Nunca me viram com bons olhos quando iniciei minha carreira no futebol. Era baixo, tinha um porte franzino e era quieto demais nas concentrações. Essa desconfiança gerava uma cobrança maior e eu cresci com isso. Trabalhei minhas limitações e aprimorei minhas qualidades. Tenho uma impulsão acima da média, facilidade em jogar com os dois pés e meu cruzamento é cirúrgico. Quando cheguei aqui o nosso time era uma várzea completa. Em pouco tempo meus cruzamentos começaram a consagrar até mesmo o pior dos nossos atacantes. O time cresceu e eu me tornara uma referência pelo lado direito de ataque. Nesse meio tempo o nosso presidente fechara acordo com uma patrocinadora que estava disposta a despejar dinheiro nos cofres do clube. Muitos jogadores de seleção foram contratados e houve apenas um caso isolado de um jogador vindo do interior do Estado como aposta: Marcão. Não quero desmerecer nenhum jogador do interior... Muitas apostas podem dar certo, mas ele não demonstrou isso no início. Marcão é um alemão alto, magro e de fala mansa. Muitas vezes é engraçado falar com ele... Sua voz não condiz com seu porte físico. Sem falar que é um ignorante total. Lembro certa vez que o nosso goleiro Nei contou uma história envolvendo fantasmas no hotel em que estávamos hospedados... Isso foi o suficiente para Marcão não dormir naquela noite e quase não embarcar mais nas outras viagens. Esse era o Marcão. Um alemão com quase dois metros de altura, mas burro feito uma porta. Muitos de nós achava que ele não teria muitas chances no grupo.

O tempo foi passando e fui novamente convocado para a seleção. Com a minha ausência do time em virtude da convocação e da séria lesão do meu reserva imediato aconteceu o ingresso de Marcão no time. O que muitos podem explicar como sorte ou destino eu vejo como minha desgraça profissional. Foi preciso três jogos para aquele alemão burro arrasar em campo. Cheguei a acompanhar um jogo dele pela televisão. Marcão era realmente um fenômeno. Era uma besta taticamente, pois não entendia nada que o nosso técnico falava. Atacava nas horas que era preciso defender e muitas vezes se metia dentro da área junto com os nossos atacantes. O único foco dele durante a partida era o gol. Talvez sua única qualidade fosse essa, mas o suficiente para conquistar a admiração da torcida e da imprensa. Quando aquela besta pegava a bola era quase impossível desarmá-lo. Era preciso três e até quatro marcadores para tentar roubar a bola dele.

Quando retornei da seleção Marcão havia se tornado o principal jogador do time e a revelação do momento. Sorte ou destino para a besta e a desgraça e a reserva para mim. Passaram-se semanas, meses e quase não jogava mais no time. Foi então que ontem procurei a imprensa e reclamei uma nova chance ou uma rescisão de contrato. O que consegui foi inúmeras corridas em volta deste sol quente como punição. Voltas e mais voltas num ritmo contínuo de um preparador físico arrogante.

Em alguns minutos tudo muda. O preparador interrompe a corrida. Escutam-se alguns gritos vindos do campo. Os médicos saem correndo em direção a Marcão que rola no gramado gritando de dor e vomitando sangue. Nosso técnico assiste tudo em silêncio... Acompanha aquele alemão agonizando até o vestiário e em seguida caminha em minha direção. Ele me entrega o colete do time titular sem dizer nada... Nem precisa. O que muitos podem achar como destino ou desgraça da besta eu vejo como sorte e 50 mil muito bem pagos para um cozinheiro endividado ter caprichado no almoço de Marcão.

domingo, 23 de outubro de 2011

Império Branco



Império Branco
Márcio Chacon

A estrada era esburacada e quase que impossível de um veículo trafegar. Para piorar nos conseguiram a pior camionete para se realizar uma operação de negociação envolvendo índios e garimpeiros.

Abri meu notebook e, ao mesmo tempo em que o equilibrava entre as pernas, refletia comigo mesmo o que havia feito para estar no meio da floresta amazônica dentro de um veículo caindo aos pedaços. A resposta era simples: Bianca. Largara o curso de Administração faltando poucos semestres para a formatura por causa dela. Foram anos de estudo e diversos cursos de especialização voltada ao comércio internacional. Cheguei a fazer estágio fora do país para aprender a falar o inglês fluentemente. Mas acabei largando tudo para participar de mais um grupo protetor do meio ambiente organizado por Bianca. Larguei tudo o que tinha para ficar perto dela. Hoje tenho certeza que não faria de novo. Diariamente você encontra muitas pessoas que defendem a preservação do meio ambiente, mas a grande verdade é que quase ninguém faz merda nenhuma para ajudar. Não posso condenar ninguém... Muitas vezes é complicado você acordar cedo e entrar floresta adentro para tentar dialogar com garimpeiros armados ou até mesmo com índios paranóicos. A Bianca mesmo caiu fora na nossa segunda missão quando um garimpeiro apontou um revólver para a nossa camionete. Pior que isso foi saber que a vadia estava me traindo com seu professor antes mesmo de terminar comigo. O que me restava era fazer as malas e voltar pra casa, mas tinha dado minha palavra ao delegado da região e também ao padre Vagner que quando acontecesse qualquer turbulência envolvendo índios e brancos eu iria ajudar. Infelizmente isso aconteceu e agora estava ali.

Éramos quatro dentro da camionete. Estava comigo um policial aposentado conhecido como sargento Silva. Era o que mais falava do grupo. Adorava dizer que cansou de trocar tiro por dentro da selva amazônica. Na verdade não precisava dizer muito, pois haviam cicatrizes pelo seu corpo. Tinha uma marca de bala no braço e outra muito feia no rosto. Segundo seu heróico depoimento ele teria se desviado a tempo e a bala apenas raspado e rasgado seu rosto. Percebi também que ele tinha uma cicatriz grande na mão direita, como se tivesse tido esfaqueado, mas ele não quis dar mais detalhes sobre ela.

Tínhamos no nosso grupo o padre Vagner. Homem mais quieto, mas muito importante quando tínhamos que negociar com os garimpeiros. Assim como eu e o sargento... O padre também tinha seus motivos para estar ali e tenho certeza que não foi nenhum desejo de Deus. A reforma da igreja aconteceu por causa de doações dos moradores da região. Moradores que ganham dinheiro através do garimpo... Pouco importando se ele é ilegal ou não. Afinal de contas assistimos diariamente muitas empresas, cidades e até impérios que cresceram com mentiras, roubos e matanças. O conceito de certo e errado não importa. Principalmente dentro de um vespeiro que é a selva.

 Também participava da nossa missão um índio que nos servia como guia. Era conhecido como Ismael e, embora o sargento Silva discordasse, ele era extremamente importante na hora de acharmos uma melhor rota na selva... Principalmente quando escurecia. Ismael era um moreno magro que deveria ter no máximo uns trinta anos. Passava a impressão de ser um indivíduo bastante inocente, mas na verdade era bastante esperto e muitas vezes chegava até a assustar quando fitava algum dos nossos equipamentos. Ficou feliz quando ganhou um celular de Vagner, mas o que ele queria mesmo era o meu notebook. O maldito não tirou os olhos da minha mochila desde que a viagem teve início.

            Passaram-se quase duas horas e enfim chegamos ao acampamento dos garimpeiros. Antes mesmo de descermos da camionete um grupo de índios nos cercou armados de facas e bastões. Vagner saiu e tentou conversar com o índio mais enérgico. De nada adiantou, pois levou soco no rosto tão forte que caiu na mesma hora cuspindo sangue no chão. Silva e eu nos ajoelhamos ao lado do veículo. Ismael permaneceu dentro da camionete como se estivesse procurando por algo. O mais estranho que havia apenas índios entre nós... Não havia nenhum sinal de garimpeiro. Para piorar existiam poças de sangues em vários pontos do acampamento. Minha esperança era que eles estivessem dentro das casas. Eu tremia, mas não sabia explicar exatamente se era medo ou raiva. Estava apavorado diante dos índios e daquela terra pintada de sangue, mas ao mesmo tempo jurava que se voltasse vivo daquele inferno iria procurar Bianca. Ia matar aquela vagabunda e o desgraçado que estava transando com ela. Finalmente Ismael desceu do veículo e então perguntei pra ele se sabia onde estavam os garimpeiros. Aquele índio magro checou algo no celular ganho de presente, se concentrou naquele brinquedo por alguns segundos e então me encarou dizendo:

- Por aí...

A resposta daquele índio podia parecer inofensiva e até mesmo cômica para muitos, mas para mim, Vagner e até mesmo Silva, significava a morte. Assim como é fácil de ser dita também é fácil de ser executada. Vagner parecia ler os meus pensamentos e então falou algo difícil naquele momento. A simples e dura verdade:

- Pelo que entendi está parecendo que algum garimpeiro violentou uma menina índia e então eles vieram para se vingar.

Naquele momento mais um grupo de índios chegaram. Haviam alguns armados com rifles... Possivelmente armas de garimpeiros. Silva então começou a chorar copiosamente. Voltei a encarar nosso guia:

- Ismael, me diga que não sabia de nada! Por favor me diga!

- Não sabia até chegar aqui. Assim como vocês.

-Então diga aos homens de sua tribo para darem um fim a esse massacre. Já tiveram sua vingança. Deixe o resto com a gente. Faz muito tempo que atrocidades envolvendo índios e garimpeiros acontecem e nada é feito. Deixe o padre conversar com vocês, deixe-me documentar tudo e procurar as autoridades. Se nos matarem só farão aumentar ainda mais esse preconceito e esse ódio envolvendo brancos e índios.

O guia não falou nada. Aquelas palavras pareciam ter provocado algo em sua mente. Sinceramente não fazia diferença matar mais alguém... Muito menos um homem branco buscar as autoridades para defender uma tribo indígena. A grande verdade que jamais contaria a Ismael é queria voltar para matar uma antiga namorada e o homem que estava com ela. A imagem de Bianca não saía de dentro da minha cabeça. Medo e raiva se misturavam... Estava enlouquecendo. Silva continuava chorando enquanto Vagner rezava pedindo proteção divina. Foi então que nosso guia foi até a camionete e pegou minha mochila. Um dos índios armados se aproximou dele e apontou o rifle na minha direção. Ismael falou algo para aquele índio armado. Não entendi a palavra, foi curta e na língua deles. Em segundos descobri o significado. Escutei um estrondo forte e a minha cabeça ferver por dentro. Alguns segundos de uma dor absurda até vir um sono forte e paralisante. Tentei abrir os olhos e vencer a morte de todas as maneiras, mas foi em vão. Já não consegui mais sentir o meu corpo... O que me restou foi tentar organizar idéias dentro de minha mente. Não sei dizer quanto tempo essa guerra envolvendo brancos e índios vai durar. Talvez tenha sido morto porque seja um dos brancos maus querendo vingança a todo o momento. Talvez eu tenha sido morto porque um índio vagabundo tenha gostado do meu equipamento.

Aos poucos a imagem de Bianca vai desaparecendo nas minhas lembranças. Sinto como se estivesse flutuando em direção a algum lugar desconhecido. Não tenho medo... Muito pelo contrário. A sensação é até agradável. Só rezo para que se algum dia abrir os olhos novamente ainda consiga lembrar dela... Mesmo que eu acorde no pior dos infernos prestes a explodir.

O Último Dia



O Último Dia
Márcio Chacon


             Ainda está escuro. Estaciono o carro e cumprimento o nosso flanelinha Gilberto. Entro na delegacia e já sinto o cheiro do café de Melissa. Acendo todas as luzes e ligo todos os computadores. Já devia estar tudo ligado com a troca do plantão, mas parece que fui o primeiro a chegar (depois de Melissa). Escuto alguém passando pelo corredor acelerado. O salto alto ajuda na identificação... Sei que é ela me trazendo um copo de café:

- Bom dia, sargento.

- Bom dia, Melissa.

- Preparado para seu último dia?

- Por que não estaria? É um dia normal... Como foram todos os outros.

- Alguns achavam que nem ia aparecer por aqui hoje.

Rio junto com ela. Melissa é a única secretária em nosso setor e sabe lidar muito bem com o pessoal... Até mesmo com os chatos. Ainda por cima é linda. Uma ruiva de olhos brilhantes e corpo desenhado magnificamente por Deus. Ela sempre foi e sempre será objeto de desejo do pessoal e sabe muito bem disso. O que é realmente incrível é saber que, toda vez que consegue fazer uma pausa no serviço, ela aparece para conversar comigo. No início achei que estava fazendo a figura do pai ausente, mas bastaram algumas semanas para perceber que estava enganado... Sei que ela gosta de mim. Tenho o dobro de sua idade e estou me aposentando para buscar um lugar onde possa enterrar os fantasmas do passado. Já havia desistido da vida a muito tempo até ela aparecer. Melissa me fez sentir vivo de novo e não lembro o número de vezes que tive a chance de tê-la em meus braços e então fazer amor da maneira como os mais belos e perfeitos dos anjos merecem. O grande problema é o fato de ser um homem casado, mais velho e com traumas que não conseguem desaparecer.

Termino o café e ela ainda está com o copo pela metade. Como se quisesse dizer algo e então cria coragem:

- Trouxe comida de casa?

- Saí tão depressa de casa que acabei não trazendo nada.

- Quer almoçar comigo?

Aquela pergunta direta faz com que pare de olhar para ela. Ela insiste com o convite:

- Por que não? É seu último dia. Assim vai poder deixar o pessoal com ciúmes saindo com a secretária preferida. Então... Combinado?

Sorrio e aceito. Ela se levanta rapidamente, vai até a porta e pergunta:

- Eu sou a sua preferida também?

Fico sem graça diante da pergunta provocativa e ao mesmo tempo doce:

- É um anjo.

Melissa sorri e sai rapidamente para atender ao telefone. O convite dela mexeu de alguma forma comigo. Aos poucos o pessoal vai chegando... Miguel e Álvaro passam por mim rindo. Logo em seguida chega Oliveira:

- Bom dia, sargento Vargas.

- Bom dia.

Preparado para alguns depoimentos e algumas pastas para arquivar.

            -Seu humor é algo notório, Oliveira.

- Vargas... Lidamos diariamente com a merda dos outros. Temos que ter bom humor. Ou é isso ou é uma bala na cabeça.

Deixo a piada dele de lado e volto minhas atenções para uma pilha de anotações e depoimentos. Oliveira ajeita suas coisas na mesa ao lado e continua a conversa:

- Sabe o doido que andava atacando pelo bairro?

- Sim... Eu leio jornais. O que houve? Pegaram ele?

- Pegaram hoje durante a madrugada. Ele matou oito pessoas em menos de três semanas não é?

- Parece que são nove. Há ligações com um outro caso não resolvido mês passado. Em todos os casos a vítima foi encontrada enterrada e com a garganta cortada.

Oliveira observa a minha pilha de depoimentos para arquivar e susurra:

- Ele vem pra cá.

- O quê?

- Parece que ele vem pra cá. Houve um princípio de tumulto na central. Os presos não querem dividir cela com ele. Acham que o cara realmente é um monstro.

- Que loucura.

- Vai cumprir seu horário normalmente hoje? É seu último dia... Poderia conversar com o delegado, se despedir do pessoal e ir embora logo após o almoço. E deixar o resto da merda com a gente.

- Melissa me contou que muita gente estava achando que eu nem ia aparecer hoje.

- Podemos sair mais cedo com ela e beber um pouco para comemorar... O que acha?

- Eu não posso. Prometi a Vera que voltaria pra casa. Estamos terminando de empacotar tudo.

Oliveira muda sua expressão alegre para séria. Então pergunta:

- Como ela está?

- Melhor. Demorou um pouco mais pra ela... Para assimilar o que aconteceu.

- Mas ela está realmente melhor?

- Sim.

Miguel aparece e corta a conversa:

- Então homem velho... Que horas pretende fazer a triste despedida?

- Eu agradeço a preocupação de todos vocês, mas vou cumprir meu horário.

- Então deixe esses arquivos e coisas importantes de lado. O delegado quer vê-lo.

- Agora?

- Claro... Esse monte de papel na sua mesa pode esperar um pouco, não pode?

Deixo Miguel sem resposta e dirijo-me a sala do delegado. O nosso famoso delegado Bueno chegou a seis anos... Eu já trabalhava aqui. Veio substituir o nosso antigo delegado e grande amigo Mathias. Não posso dizer o mesmo de Bueno. Tenho certeza que essa conversa com ele não será agradável. Sei que ele não gosta de mim e eu também não gosto dele.

Antes de entrar, respiro fundo e então bato na porta. Escuto sua voz autorizando minha entrada. Entro e o cumprimento:

- Bom dia, senhor.

- Bom dia, Vargas. Sente-se.

Sento de frente para ele que termina de ajeitar sua gravata.

- Então é o seu último dia hoje, certo?

- Sim senhor.

- Incrível... Realmente incrível. Estava dando uma olhada em sua ficha. Praticamente viveu dentro da polícia.

- Sim senhor. É verdade.

- Trabalha nessa delegacia a uma década. No mesmo serviço, na mesma mesa e com o mesmo ramal de telefone.

Permaneço em silêncio enquanto ele continua lendo detalhadamente minha ficha.

- Sabe que não terá todos os benefícios saindo agora?

- Sim senhor... Sei sim.

- Vou confessar uma coisa. Não preciso perguntar o motivo de estar saindo agora. Bastou eu ler esse recorte de jornal solto em sua ficha para descobrir. Faz pouco tempo que perdeu sua filha, não é?

- Três meses, senhor.

- Deve ter sido dífícil.

- Foi sim.

Pelo jornal temos poucos detalhes. Ela voltava da praia com duas amigas quando outro carro invadiu a pista e bateu em seu carro. Apenas a amiga que estava no banco de trás sobreviveu, correto?

- Sim senhor.

- Sua filha chegou a ser socorrida?

- Sim... Ela morreu três horas depois de chegar ao hospital.

- O motorista fugiu?

- Sim senhor. O veículo que ele estava usando era roubado.

Não queria falar mais sobre o acidente. Se tivesse encontrado o motorista... Ele já estaria morto e eu talvez estivesse preso em uma cela com outros seis bandidos. Bueno guarda minha ficha em uma pasta e atira sobre a mesa. Precisaria dizer algo humano naquele momento, mas é uma tarefa complicada para pessoas como ele.

- Como está sua esposa?

- Está melhor, senhor.

- Algumas vezes os desígnios de Deus nos trazem dor.

- Sim senhor. É verdade.

- Detesto esse tipo de conversa... Detesto perder um bom policial... Mesmo sabendo que ele quase nunca saiu para as ruas ou trocou tiro com bandido.

- Senhor... Eu me orgulho em ter sido um bom policial para esse bairro.

Bueno me encara, pega o telefone e disca para alguém:

- Só passem ligação para a minha sala quando o estagiário chegar!

- Vargas... Eu respeito policiais velhos, mas não tenho paciência com molecada que dorme até tarde.

Bueno pode ser mais novo, mas é esperto e sabe a importância da figura dele para o funcionamento das coisas em nossa delegacia. Já foi premiado três vezes pelo próprio prefeito e isso não é para qualquer um... Principalmente para filhos da puta como ele.

- Eu não quero ocupar seu tempo, senhor. Eu já estou com quase tudo pronto.

- Você é o menor dos meus problemas hoje, Vargas. Lá fora existem todos os tipos de bandidos e assassinos circulando livremente e justamente hoje a central vai me trazer o pior deles.

- Eu fiquei sabendo, senhor. Oliveira me contou sobre a prisão.

- Ainda não sabemos de nada, mas depois de alguns exames eu vou saber até com quem o maldito estudou na infância.

Alguém bate na porta e Bueno manda esperar. Retoma a conversa de forma harmônica:

- Quero te pedir um favor. Nunca gostamos um do outro... Não conversamos nos churrascos e não bebemos junto. Mas quero te pedir um último favor como seu chefe.

- Sim senhor.

- Não fode comigo hoje. Você vai receber o cara e vai fazer ele assinar uma confissão por todos os crimes divulgados pela imprensa. Não importa o nome que ele vai dar e a garantia que ele vai pedir... Ele vai assinar e essa merda termina hoje. Entendeu?

Não digo nada. Penso em devolver o elogio, mas mantenho a calma. É ele quem continua:

- Preciso que faça isso, Vargas. Apenas isso... Mais nada. Pode sair agora.

Abro a porta e encontro o estagiário assustado como se estivesse escutado toda a conversa. Volto a minha mesa e retomo o serviço. Oliveira aparece curioso:

- Como foi a conversa?

- Amigável.

- Vão trazer o cara no início da tarde. Se eu fosse você dava uma volta, botava a cabeça no lugar, almoçava e então voltava para encarar o preso.

- Talvez almoce com Melissa. Não pretendo sair agora.

- Vai sair com Melissa?

- Ela me convidou para almoçar.

- Vargas... Tudo começa com um almoço, sabia?

- Eu sou um homem casado, Oliveira.

- Eu sei disso. Estava apenas brincando.

- Deu para perceber.

- Olha...Você terá que entregar sua arma. Um rapaz da central vem buscá-la. Talvez venha agora de manhã ou talvez venha de tarde.

- Eu mesmo tenho que entregar?

- Sim... Precisa da sua assinatura no formulário. Quem dita o ritmo das coisas em nosso país é a burocracia.

Oliveira volta para sua mesa. Olho para a minha e não sei nem por onde começar. Melissa passa por nosso setor sorridente como sempre. Miguel vai atrás dela feito um verdadeiro idiota. Começo a pensar em Vera. Penso no quanto ela ficaria feliz em me ver chegando agora em casa. Mas também penso em Melissa. O que poderia dizer pra ela durante o almoço? O que fazer? Talvez aceitasse a idéia de Oliveira. Sairia daqui mais cedo. Bueno não precisa de mim para fazer um homem assinar sua confissão. Deixaria um recado para Melissa ou até ligaria para ela avisando que surgiu algum imprevisto. Mas que imprevisto? O que realmente dizer? Meus pensamentos são interrompidos com o telefone.

- Alô.

- Vargas... É o Álvaro. Sei que está ocupado, mas pode atender uma senhora pra mim? Tentaram assaltar ela, mas não chegaram a levar nada. Ela insiste em prestar uma queixa.

Percebo Melissa voltando ainda seguida por Miguel.

- Passe o rolo para Miguel. Ele está passeando pelo prédio ao invés de trabalhar.

- Sério?

- Sim. E diga que eu sugeri o nome dele.

- Ele vai adorar. Deixa comigo.

Desligo com um sorriso no rosto e retomo novamente o serviço. Decido parar de pensar um pouco em Vera e Melissa para me concentrar no trabalho... Mas não consigo. A manhã vai se arrastando e junto com ela os meus pensamentos. Não consigo trabalhar normalmente. O barulho ao meu redor já começa a atrapalhar... Coisa que a anos não acontecia. Passam-se duas horas e continuo com a mesa lotada de coisa. Dá a impressão de ter trabalhado apenas uns vinte minutos. Queria estar ajudando Vera na mudança e ao mesmo tempo a ansiedade aumenta em ver Melissa na hora do almoço. O convite dela realmente despertou algo dentro de mim. Largo momentaneamente aquela papelada por toda a mesa. Levanto e vou atrás de café. Passo pelo corredor e tento ver Melissa. Sua mesa está vazia... Sigo em direção à sala do café. Álvaro e Miguel estão lá. Evito a conversa... Principalmente com Miguel que deve estar louco para me dar o troco. Encho meu copo de café e volto para minha mesa. O barulho aumenta, mas agora é diferente. Vem da rua... Forte e turbulento. Vou até a janela e conto cinco viaturas nossas. Oliveira surge apenas para confirmar o que já presumia:

- O nosso preso chegou.

- Trouxeram cedo.

- Acho que quiseram despistar a imprensa e conseguiram despistar até a gente.

- Acha que vão pedir para começar agora?

- Provavelmente sim.

Já cogitava a possibilidade de ir embora, mas queria ver Melissa... Precisava falar com ela. Bueno sai de sua sala acelerado e reclama algo com o estagiário. Vou até o corredor e tento achar uma visão privilegiada de tudo. Vejo doze homens armados e o preso. Bueno conversa com um policial e continua nervoso. Tento observar ao máximo o nosso suspeito. Tudo é válido e também facilita o trabalho de um policial. Não consigo ver muito, mas é notório que é um homem alto... Um homem branco que deve ter no máximo 35 anos de idade, cabelos castanhos e olhos bem negros. Sem tatuagens visíveis, brincos, olheiras ou alguma marca que pudesse rotulá-lo como algum doente perturbado ou ainda drogado. Aparentemente dá a impressão de ser o mais calmo de todos os homens presentes na recepção. Bueno volta para a sua sala me encarando. Escuto ele fazer uma ligação curta. Sai já com a ordem pronta e que já estava pronto a receber:

- Deixa tudo preparado na sala. Quero terminar isso antes do almoço e despachar ele para longe daqui.

Bueno também manda Oliveira me ajudar. Temos em nossa delegacia apenas duas salas destinadas a situações como essa. Situações envolvendo depoimentos, interrogatórios e confissões dos piores tipos de crimes já praticados pelo ser humano. Dependendo da pessoa o processo é rápido... Ainda mais com Oliveira ajudando. Talvez pudesse deixar tudo com ele e sair mais cedo. Organizo a mesa enquanto Oliveira checa a imagem da câmera instalada no teto. Alguém bate na porta, Oliveira abre e então Bueno e um oficial entram. É o nosso delegado quem faz a apresentação:

- Comandante Freitas... Estes são os homens que vão cuidar do suspeito. Felipe Oliveira e o meu perito nesse tipo de assunto... O sargento Vargas.

Sinto o deboche por parte de Bueno, mas ele é menor do que de costume. Percebe-se que continua tenso e a maneira e o ritmo como que ele está conduzindo tudo isso pode ser prejudicial.

Terminada toda a formalidade de apresentações pergunto quando o depoimento do suspeito teria início. Freitas responde que imediatamente. Oliveira então pergunta:

- Como aconteceu a prisão? Onde o encontraram?

- Não houve um processo de busca e prisão.

- Como assim?

- O suspeito foi até uma delegacia afirmando ser o responsável pelos crimes. Foi encaminhado para a nossa central onde houve um princípio de tumulto entre os presos. Trouxemos ele pra cá e os senhores farão o registro de tudo.

Bueno entrega a ficha do preso para Oliveira e acompanha o comandante até a porta. Ficamos então sozinhos na sala... Aos poucos começamos a ouvir o barulho dos degraus da escada. Presumimos que começará logo... Conforme deseja o nosso delegado. Oliveira me passa a ficha como se pedisse para começar e ser o responsável pelo andamento das coisas... Algo que eu não queria naquele dia.

A porta é aberta novamente... O preso entra seguido por dois policias. Eles o amarram completamente na cadeira... A única coisa que consegue movimentar é o seu pescoço. Ainda permanece ou aparenta um aspecto de tranqüilidade. Os olhos estão mais negros que antes. A calma insana e o seu silêncio começam a fazer efeito sobre Oliveira. Sento de frente para ele enquanto Oliveira permanece de pé. Quando os policias saem eu começo o que definiria como apresentação:

- Bom dia. Sou o sargento Vargas e este é o investigador Oliveira. Sabe o motivo de estar aqui?

- Sim.

Abro sua ficha e percebo que ele observa a sala atentamente... Cada mínimo detalhe.

- Vou tornar as coisas rápidas para você, por isso pediria que respondesse apenas o que pergunto.

- Por que não há janelas aqui?

- Estamos em uma sala de interrogatório. Não há necessidade em apreciarmos a vista. Eu peço novamente que responda apenas o que perguntar. Posso continuar?

- Sim.

- De acordo com a ficha que recebi... Seu nome é Júlio César Lima. Natural de Porto Alegre e completou 34 anos mês passado. Você pode me confirmar tudo isso?

- Sim.

- Sabe o motivo de estar aqui?

- Posso pedir um favor, sargento?

Oliveira responde:

- Apenas diga sim ou não para cada pergunta.

Ambos se encaram naquele momento. O fato de aquele homem estar completamente imobilizado não o torna menos aterrorizador.

- Não há necessidade disso. Queria apenas pedir um favor. Estou preso... Não posso fazer nada.

- Já chega! Se não ajudar será posto em uma cela com outros presos tão ruins como você e talvez tenha que dividir a ração com eles.

Percebo que Oliveira está nervoso e retomo com o interrogatório:

- Seu nome é Júlio César Lima. Natural de Porto Alegre e completou 34 anos no dia 13 do mês passado. Você pode me confirmar tudo isso?

- Sim.

- Sabe realmente o motivo de estar aqui?

- Sim.

- Você está sendo acusado pelo assassinato de oito pessoas e o desaparecimento e provável assassinato de um jovem mês passado. A perícia ainda não conseguiu encontrar provas que ajudem na identificação do criminoso. Pode me dizer se é o responsável pela morte dessas pessoas.

- Não matei o garoto.

- Pode repetir?

- Não matei o garoto que sumiu.

- Você confirma que é o responsável pela morte dessas oito pessoas?

- Posso lhe pedir um favor, sargento Vargas?

Que tipo de favor?

- Gostaria que soltasse um pouco a corrente no meu pulso. Os policiais quase o quebraram quando me prenderam aqui.

Oliveira ataca:

- Sem chances! Apenas responda a pergunta!

- Policial... Estou totalmente imobilizado. Mesmo que seja realmente um doido ou mentalmente perturbado... Não posso fazer nada. Só estou pedindo para examinarem meu pulso porque está doendo e não consigo pensar direito.

Peço para Oliveira sair e providenciar alguém que examine o pulso do preso. Não precisaria fazer isso. Bueno deve ter providenciado, pois acompanha tudo pelo monitor, mas a irritação de Oliveira pode atrapalhar o andamento das coisas.

Aguardo sentado de frente para aquele homem. Passam-se quase dez minutos e nada de Oliveira voltar... Muito menos alguém aparecer para examinar o suspeito. Olho para o relógio já preocupado e desejando que aquilo termine logo. É a vez do interrogado me perguntar:

- Algum compromisso para o almoço?

- O quê?

- Perguntei se tem algum compromisso mais tarde?

- Talvez.

- É o seu último dia como policial, não?

- Como sabe disso?

- Durante o trajeto ouvi alguns policiais comentando. Dizem que você é o melhor... Apesar de estar velho. E hoje é o seu último dia por aqui.

- Sim é o meu último dia.

- Fico feliz em saber que serei o seu último interrogado.

Aquela voz e aquele tipo de conversa já começava a me afetar também. Levanto-me impaciente e vou até a porta. Finalmente alguém aparece para examiná-lo. Miguel também entra e pede que vá conversar com Bueno. Caminho pelo corredor tomado de policiais e vou até a sala de Bueno. Ele não tira os olhos do monitor e não fala nada.

- O senhor queria falar comigo?

- Mandei Oliveira embora. Ele estava me deixando nervoso.

Concordo com a idéia dele. Nervosismo apenas atrasa as coisas.

- Encontramos uma testemunha e isso vai ajudar bastante. Você vai voltar lá depois improvisarem algo no braço do desgraçado. E vai fazer ele assinar a confissão. E toda essa merda termina hoje.

- Deixo nosso delegado e volto a sala de interrogatórios. O tempo passa e o exame continua... Parece que realmente quebraram o pulso dele. Não encontro uma explicação para terem feito isso... O homem nunca reagiu a nada desde que chegou aqui. Confiro o relógio novamente e já está na hora do almoço. A ansiedade em ver Melissa me destrói por dentro. Desço as escadas apressado e vou até a recepção atrás dela. O estagiário me informa que ela foi almoçar sozinha para não me atrapalhar no trabalho. Guardo o sentimento de frustração e volto para a sala onde está o preso. O estagiário me alcança e diz que um policial veio buscar minha arma.

- Agora não posso. Mande-o esperar.

O tempo não importa mais agora. Subo as escadas e chego até a sala onde um médico imobiliza o pulso do preso. Sento de frente para os dois. Agora não há motivo para pressa ou olhar tanto para o relógio. Queria estar com Vera, mas queria ter visto Melissa pela última vez. Queria acreditar que Daniela não tivesse sofrido tanto antes de morrer. Escuto algo do preso, mas não consigo me concentrar no que ele diz. Ele repete:

- Sinto muito.

- O quê?

- Eu sinto muito.

- Por quê?

- Por ter estragado seu almoço.

Aquele homem ali parecia adivinhar o que passava por minha cabeça. Como se minha mente sussurrasse em seu ouvido todos os meus demônios interiores. Aquele preso não devia estar aqui. Eu também não devia. Queria estar com Vera, queria Melissa e queria minha filha de volta.

O médico sai e ficamos sós... Apenas ele e eu. Tranco a porta, abro a minha pasta, pego uma folha e sento ao seu lado.

- Pode assinar sua confissão, por favor?

Não há reação naquele homem. Nenhuma queixa ou negação. Ele simplesmente pega a caneta e assina para talvez o alívio de Bueno vendo tudo no monitor.

Agradeço e guardo aquele papel que provavelmente o mantenha preso até a morte.

- Eu assinei pelas mortes noticiadas, correto?

- Sim... Não será julgado pelo desaparecimento que mencionei antes.

- Acharam o motorista que bateu em sua filha?

Existem coisas que não desejamos ouvir. Coisas que não nos fazem pensar... Apenas agir.

- O que disse?

- O motorista. Ele foi preso depois que sua filha morreu? Só se fala em você por aqui. Dizem que você está saindo por causa disso... É verdade?

- Por que me pergunta isso?

Porque o estagiário lhe pediu para entregar sua arma antes de entrar aqui, mas você não o fez. Por que voltou armado e trancou a porta?

- Do que diabos está falando?

- Poderia ter entregado a arma. Jamais saberia se eu fosse realmente o responsável pelo acidente. Aí que surge minha dúvida. Por que entrou armado?

Alguém bate na porta. Escuto Bueno me ordenando que abra. Já não consigo pensar direito. Não há mais lógica nas coisas.

- Você matou minha filha?

- O que quer que eu diga? Foi um acidente de trânsito.

Aquele tom de voz, aquela calma e frieza me contaminam. Aquele homem não devia estar ali. Atiro uma cadeira contra a parede, saco minha arma e pergunto:

            - Você matou minha filha?

- Não. Não estava na cidade, Vargas.

Percebi na hora que aquele homem falava a verdade. Ajoelho-me e lágrimas correm pelo meu rosto. Uma sensação de vergonha e ao mesmo tempo de frustração crescem dentro do meu peito. Bem que poderia ser aquele homem diante de mim o responsável por ter me tirado uma filha e por ter me deixado uma esposa doente. Bueno esmurra a porta violentamente aos berros. Estou sem forças para me levantar e sem coragem de encarar um homem algemado que continua com seu diálogo:

- Não matei sua filha. Talvez nunca peguem o responsável. Mas se você quiser... Assumo isso por você. Assumo ser o responsável pelo acidente, por você não estar em casa agora e por ter perdido o almoço com alguma colega de serviço.

Agora já encaro aquele homem. Levanto do chão ainda com a arma.

- Vargas... Foi esse o motivo da pressa? Ia sair com alguém daqui? Na verdade vi poucas mulheres nessa delegacia. A única que me chamou a atenção foi uma ruiva na recepção. É linda como um anjo e eu até seria capaz de trair minha esposa com ela... Se fosse um homem casado, claro.

- Tem idéia do que acabou de me dizer?

- Quero apenas pedir desculpas por tudo. Antes que você use a arma e antes que arrebentem a porta.

Não havia mais nada lógico nas coisas, não conseguia mais raciocinar. Estava em um inferno. O inferno não é alguém ardendo em fogo eterno e sim a impossibilidade de raciocínio. Não há Bueno e nem leis naquela sala. Apenas ele e eu. O armado e o desarmado. O bom e o mau. Que então deixem o homem ser o carrasco do próprio homem. Aponto minha arma para ele, enxugo minhas lágrimas e sorrio:

- Talvez você esteja certo.

- Dou quatro tiros naquele homem algemado, a porta é arrombada e sinto algo forte me acertando na cabeça. Alguns segundos de dor, tontura e em seguida o sono. E ali terminou meu último dia.