sábado, 30 de junho de 2012

Bocas Vendidas





Bocas Vendidas
Gilberto Strapazon


O Oitavo Círculo do Inferno chama-se Malebolge (fraude), é todo em pedra e da cor do erro, assim como a muralha que o cerca. Aqui estão os fraudulentos. Este círculo está dividido em dez fossos(ou Bolgias).
O Quinto Fosso é a Vala dos corruptos. Nele os corruptos estão submergidos em um piche fervente; os que tentam ficar com a cabeça acima do caldo são atingidos por flechas atiradas por demônios. Em vida, os corruptos tiraram proveito da confiança que a sociedade depositava neles; no inferno estão submersos em caldos, escondidos, pois suas negociações eram feitas às escondidas.



I

Entre as grandes mesas da enorme biblioteca, ela sentou e olhou curiosa para aquele livro que havia encontrado na seção de textos antigos.
Trabalhava ali fazia muitos anos, lia de tudo, então sempre tinha uma ponta de curiosidade sobre o que iria aprender desta vez.
Os dedos finos e delicados tocaram a velha capa de couro. Tinha cantoneiras em metal trabalhado. A luz da manhã dava um colorido especial, era uma peça de artesanato muito antigo.
Abriu o livro e olhou as antigas páginas. Era um manuscrito, mas com letras muito claras. Abriu uma página ao acaso no meio do livro e leu as palavras que logo chamaram sua atenção... Pareciam recentes. A tinta parecia ainda brilhar no pergaminho já amarelado...

O texto parecia sair da páginas e falar com ela, as palavras soavam em seus ouvidos:

Então você chegou. Seja bem vinda minha cara.
Você chegou aqui e não foi por acaso.
Vi quando procurou a página certa, vasculhando entre todos os livros.
Quantas vezes olhei você esquecer o trabalho que deve realizar enquanto se esfregava com seus colegas idiotas entre as prateleiras? Pratique, mas não esqueça o porquê.
Desfrute das palavras. Está vendo aquele rabisco no canto dessa página? Foi seu antecessor que deixou para avisá-la. Ele sabia que não teria tempo e deixou um aviso. Veja os outros também.

In a Library
Arte:
situo

Estou esperando você desde seu primeiro sangramento. Eu estava lá e bebi sua respiração ansiosa!
Vi sua expectativa pelo que viria depois e induzi todos seus sonhos para que descobrisse seu corpo e aprendesse suas artes.
Ajudei seus professores para que a deixassem em paz. Eles só têm palavras humanas e ciências caóticas que iludem sua raça miserável. Mas serviram para alimentar seu corpo e fazê-la obediente ao serviço que deve cumprir.
Todos seus espaços são meus. Sua pele me pertence. Traga-me o suor deles para que junto com os fluidos do seu corpo alimentemos a criação.
Vejo você ao acordar e embalo suas noites. Desde sempre você foi treinada para isto.
Quando você abraça qualquer sujeito, sempre acha maravilhoso não é?
Nunca percebeu que sempre sou eu que estou ali?
Você os manda embora porque qualquer motivo.
Mas nunca percebeu o quanto todos são maravilhosos abraçando seu corpo? Nunca percebeu que nenhum deles fez falta ou deixou saudade simplesmente porque sabe que é assim. Sempre será completo.

Guardei seu cordão umbilical e desfrutei do sangue que sua mãe lhe deu.
Alimentei os cães e rasguei as roupas daquelas freiras que visitavam sua casa. Inúteis sanguessugas! Elas nem ao menos souberam como chicotear sua pele direito.


Lembra-se das visitas aos domingos quando sua mãe saía com seu pai?
Eu estava lá muito antes, quando você foi feita. Aproximei os dois até que um dia e eles viajaram para o sul.
Chovia muito pela manhã e fiz seu pai errar o caminho. Eram jovens e gostaram da paisagem tranquila do lugar quando o sol iluminou tudo.
Fiz o pasto e a relva entre as árvores pulsar com a força da vida. Encontraram o recanto que escolhi perto do lago da grande pedra.
Montaram a barraca e ficaram ali por vários dias. Ela se divertia quando amava seu pai entre os bichos da floresta que vinha até bem perto para olhar. Hippies de cidade e suas drogas... Acham que tudo é normal e bonito. Ela nem percebia a diferença entre seu pai ou um dos javalis que a tocavam.
Juntei todos eles para fazer você. Seus olhos de lebre, suas orelhas de cervo, suas pernas delicadas e seus ouvidos apurados como os de um cão.
Fiz com que passassem muito tempo na caverna da pedra grande. Acharam que tiveram sorte por tantas coisas que encontravam. Não tinham lanternas para entrar e explorar, mas meu cachorro fiel sempre esteve cuidando entrada.
Para ela foi apenas um cãozinho. Tão dócil e de pelo tão macio, quente, carinhoso. Misturei as plantas necessárias ao café que faziam para assegurar que as drogas mundanas que usavam não tivessem efeito. Troquei-as por outras feitas com as pedras do lago e as raízes dos cogumelos que os elementais buscaram ao meu pedido.
Tudo parecia normal para ela. O vinho, os carinhos do seu pai e o cachorro lambendo sua nuca.
Fiz soar o trovão quando o momento certo chegou. Os grandes olhos vermelhos do cão cintilavam de alegria. O céu da noite sem lua brilhava muito com as estrelas cadentes que corriam sem parar.
A senhora do lago saiu de seu refúgio para ajudar no instante final. O corpo de sua mãe foi lavado com os fluidos de todos os seres. Alimentou-se de nós por toda noite.
Ela foi boa. Dei-lhe a tatuagem da união.

Lembra-se das tatuagens que escolhi para você? Nunca mais cortou o cabelo, deve ter se esquecido das que circundam sua cabeça. Mas as pequenas junto ao seu sexo, você aprendeu rápido a tirar proveito. Quando chegou a hora seu primeiro namorado percebeu apenas quando era tarde demais.
Ele fez um bom serviço, poderíamos tê-lo usado por mais algum tempo. Dane-se ele e aquela ponte onde se jogou. Ele ainda tinha alguns textos para traduzir para você. Mas ninguém pensou em associar um cientista de 60 anos e uma adolescente e foi oportuno também. Você sabe como foi produtivo ter ido ao velório dele como se fosse uma funcionária qualquer. Aqueles três catedráticos e a deputada que você enlaçou juntos dentro de você entre as tumbas lá do fundo foram uma boa aquisição para a lista. Eles ficaram contentes por não ser um enterro chato.
Lembra agora dos outros que você conheceu através dele? Trabalho bem feito ao ganhar a confiança de cada um e torna-los confiantes nas pequenas festas que você aos poucos foi criando para que ficassem a vontade juntos e sem pudores para falar abertamente enquanto se satisfaziam.
Valeu a pena as marcas das palmadas e atender as volúpias daquelas arrogantes que se satisfazem com tão pouco. Uma carreira por um mimo qualquer.  Tolas explorações pervertidas no teu corpo todo em troca de confidencias de estado. Não tem muita diferença venderem a própria boca por tostões ou pelo prazer do teu corpo não é?
Vê aquela figura ali? Leia a legenda, em que ano foi feita aquela velha casa. Ali treinamos alguns que vieram antes.
Esperamos você todo este tempo que não é nada para nós. Desde o princípio oferecemos a verdade, mesmo que tenhamos que usar alguns ardis de vez em quando.
Você vai gostar das paredes de pedra e dos pequenos túneis que levam ao espaço de trabalho, com a raiz da grande árvore que atravessa aquele espaço. Existem vários.
Agora você chegou aqui para encontrar a verdade. Seu corpo foi alimentado e preparado. Leve o Livro para continuar seu trabalho.
Onde estão aqueles cientistas e doutores que indiquei? Está chegando a hora de mais um passo na caminhada.
Sinta o cheiro de fel e sangue nas páginas. Reconhece a tinta? Lembra quantas vezes lhe mostrei como escrever escondida com seu próprio sangue, após ter dado prazer a si mesma durante os períodos em que a Lua faz a limpeza do seu corpo? Cada um dos textos e símbolos tem sido desenhado nos lugares certos, nos templos e lugares sagrados das pessoas.
Isto minha cara. Achou... Essa é a página em branco. Ela é sua. O que espera encontrar se estou sempre ao seu lado?

Agora é sua primeira grande iniciação. Seu grande ritual de passagem. Vim para trazer a Luz e não para satisfazer toscas pretensões. Essa raça ainda estaria nas cavernas disputando ossos.
Prepare aqueles homens e mulheres. Todos eles.
São intelectuais, vão gostar de conhecer a gruta da velha casa. Fale das raízes muito antigas que serpenteiam entre os túneis. Lembre-os do ambiente íntimo e aconchegante que pode ser quando estão com você.
Não se esqueça do velho reitor e seu assistente. Você sabe como ser boazinha para eles e suas perversões. Estarão ansiosos por acompanhá-la.
Não se preocupe com as espertinhas do instituto de pesquisa. Elas pensam que vão ser o centro das atenções com seus dotes recatados. Farei com que sejam. Também.

II

O churrasco na grande fazenda tinha sido muito bom para todos. O assistente do reitor tinha contratado uma equipe para cuidar de tudo. E nem gastaram tanto. A bibliotecária tinha o cartão de uma empresa especializada. 

Era bom saírem da cidade para algum lugar assim, retirado. Todo cientista importante como eles deveria ter essa possibilidade, pensavam. Afinal, recebiam muito dinheiro pelo seu trabalho e podiam dar-se ao merecido luxo e deixar as coisas banais para as pessoas comuns.
E ninguém sentiria muita falta deles hoje. Aquela conferência ambiental era uma chatice mesmo. Eles já tinham enviado seus trabalhos para apresentação. Só iriam lá para alguma entrega de prêmios e troféus.
Mas desta vez a imprensa estava mais interessada em balelas sem importância e papo furado dos fracassados que não eram tão inteligentes ou espertos para cuidar da própria vida.

A paisagem era magnífica. As árvores e a relva pareciam muito mais coloridas por causa do sol quente. Bebiam, conversavam, dançavam. O velho casarão era um pequeno achado. Ninguém soube precisar sua idade. As grossas paredes de pedra, o estilo do telhado muito inclinado, os três andares com pequenas janelas entre as muitas chaminés eram um convite à exploração. Andavam pelas muitas peças decoradas com cortinas e tapetes finos.

De vez em quando algum deles cruzava com aquela bibliotecária miudinha que já fazia parte da turma há muito tempo.

Apocalypse
Arte: FluffyNucleargarden

Era jovem e bem torneada. Mas ninguém sabia ao certo sua idade, 30 talvez 40. Mas parecia ter 20 pela disposição. Eram todos íntimos e ela tinha aproveitado o dia ensolarado e usava um vestido de alcinhas. Acariciava um e outro abertamente como já tinham feito tantas vezes.
E o dia era especial. Talvez fosse a primeira vez que todos estivessem juntos. E ali era bem reservado e distante. Sempre faziam alguma coisa em grupos menores. As doutoras estavam radiantes entre si ou com vários homens e mulheres ao redor de cada uma.
O cheiro de sexo e bebidas corria por toda casa. Apreciavam os belos quadros antigos, que pareciam ter vida própria enquanto se acariciavam. Ou conversavam sobre algum projeto comendo pedaços de carne assada.
A bibliotecária passava de mão em mão, todos sabiam que ela era a escrava deles. Fazia tudo que queriam sem nunca recusar nada. Obediente. Alguns pensavam se ela era contorcionista por tanta elasticidade e resistência. O rostinho tinha um jeito que lembrava os orientais e sua doçura. Talvez fosse nórdica. Sim, ela tinha o jeito das mulheres nórdicas.
E era inteligente o suficiente para conversar sobre o que faziam, mas parecia não se interessar muito. Pelo menos ficar lendo na biblioteca para passar o tempo tinha alguma utilidade também.
Definitivamente ela era uma serviçal completa. E sabia mexer no computador para tudo que quisessem. Se tivesse um pouco mais de iniciativa poderia trabalhar nalguma grande empresa. Mas a única iniciativa que ela parecia ter era para servir a todos.

III

No meio da tarde, alguns encontraram uma sala no terceiro andar. Era em estilo medieval muito antigo. Tinha pesadas poltronas, uma mesa com tiras de couro. Apenas uma pequena janela.
Logo mais comentaram do achado numa das salas. As pessoas falavam alto agitadas, divertindo-se com o achado.
A bibliotecária falou que talvez fosse um antigo calabouço, mas não entendia porque ficaria no terceiro andar. Ainda mais, comentando por acaso, quando tinha algumas grutas embaixo da casa, ligadas por túneis antigos que eram muito aconchegantes e com diversas raízes dos antigos carvalhos que rodeavam o casarão passando pelas paredes.
Grutas?
Todos olharam para ela tomados pela pouca curiosidade científica que ainda tinham e pela expectativa de visitar um lugar realmente diferente.


Abandonai toda a esperança vós que entrais!
A Porta do Inferno – Dante Aleghieri – A Divina Comédia


Logo todos desciam com suas bebidas conversando e rindo alto por uma escada que começava numa gruta de uma grande pedra ao lado da casa. Era perto do belo lago que havia na propriedade e ninguém havia percebido quando vieram do outro lado.
Com certeza o local era magnífico e bem reservado. Já tinham visto vários animais selvagens de todo tipo por ali. A natureza era para poucos privilegiados com certeza!
Havia algum tipo de iluminação natural que se infiltrava nos corredores talvez naturalmente esculpidos.
Grossas raízes apareciam pelas paredes de um lado ao outro. O local tinha uma temperatura morna, muito agradável e à medida que andavam pelos corredores, passando por várias câmaras, uns e outros, alguns meio nus ou apenas com uma bermuda cruzavam com as mulheres do grupo que estavam satisfeitas no controle da situação.

Elas iam se acariciando entre si e com aquela "empregadinha" como a chamavam, por preferirem uma mulher ou para fazer algo diferente ou só por diversão. Ela parecia gostar de tudo, quieta ou muito sorridente, rindo alto às vezes, mas sempre esperando que alguém desse as ordens. Recebia palmadas e objetos em seu corpo como se fosse uma criança ganhando um presente. Realmente ela era submissa e servil como deveria ser uma boa funcionária.

Nas poucas vezes que ela parecia tomar iniciativa era sempre para estimular os demais. Fosse servindo bebidas sem esperar ordens, ou arrumando a casa toda numa visita, ajudando no laboratório deles ou pondo o maldito computador em ordem. E ainda satisfazia o que fosse. Como atender algum visitante ou representante daquelas empresas que vinham discretamente.
Era ótimo como ela acabava ajudando naquelas situações. As negociações deixavam de ser chatas e todos se divertiam muito. O cheque geralmente acabava sendo maior. E ninguém se preocupava mesmo. A funcionária gostava de ser usada e depois deixava tudo arrumado. Era discreta, nunca aparecia fora daqueles momentos e ninguém nem sabia que eles a conheciam. Perfeito! Uma putinha anônima que não constrangeria ninguém. Devia ser alguma coisa do sangue dela.
E claro que eles tinham verificado sobre a vida dela. Não dá para arriscar a operação sem chamar um detetive de confiança. Mocinha comum, pais estudantes. Os detetives varreram a vida dela. Assistente de um e outro professor, nenhuma aspiração política, igreja, nada. Mas gostava de sexo e cozinhava bem. Era o bastante.

O grupo parecia ter gostado dos recantos entre os vários corredores da gruta. Eram ótimos para uma reunião informal como aquela. As raízes com formas elaboradas eram lisas e serviam como apoios para todas as posições sexuais que pensassem. Até para a bibliotecária se esfregando com o cachorro.


Estavam numa das cavidades um pouco maiores. Uma das paredes parecia ter mais raízes que as outras. A cavidade era como um pequeno salão que se alongava um pouco para outra passagem mais escura, a luminosidade era suficiente para enxergar bem o que acontecia. Parecia ter algum tipo de placa muito velha e gasta no teto da passagem, mas ninguém perdeu tempo tentando ler aquilo.
Ninguém viu donde ela trouxera o cachorro, com certeza ele era da casa. Não dava para saber a raça, era grande e com pelo negro muito lustroso. Talvez fosse um dinamarquês ou algo assim, pois era quase do tamanho da bibliotecária. Era bem característico dela tomar essas pequenas iniciativas. Ela não tinha muitas, mas sempre eram criativas e bem vindas, como um chá feito na hora certa.

Ela podia ser limitada, mas com certeza a safada gostava daquilo. Uma das raízes parecia um enorme falo ereto saindo de uma parte mais baixa da pedra. Ela sorria olhando para todos enquanto roçava o enorme mastro entre as nádegas. Olhava para todos sorrindo enquanto o cachorro voltou a se esfregar nela. Ela se ajoelhou embaixo dele e dizia para todos aproveitarem, pois iria ficar muito melhor. Tinham todo tempo do mundo, que aproveitassem do fruto das suas obras.
Os olhos do cachorro tinham aquela cor vermelha de quando refletem a luz. Mas todos estavam muito bêbados ou ocupados para analisar o ambiente.
Sim, todos sabiam que mereciam desfrutar aqueles privilégios. Faziam tanto por isto!
Ela levantou-se, o sêmen do cão escorria pelas suas pernas, pegou o cientista mais próximo pelo membro ainda ereto, e rindo muito foi levando-o para a outra passagem mais escura. Bolinou uma das mulheres que puxou a outra e todos meio abraçados logo continuaram sua caminhada ansiosos por mais diversão.
Foram adentrando no corredor adiante, observados pelo cão que havia ficado sentado junto das raízes.

O silêncio aos poucos voltou a reinar. Algum tempo depois a bibliotecária voltou. Sózinha.


Fez um afago no cão que lambeu sua mão.

Ela estava sorridente e relaxada. Olhou para o grande animal e disse:

-Bom trabalho Cérbero.



Epílogo


Apagão 4
Foto: Fernando Freitas
Alguns dias depois o jornais noticiavam a respeito do andamento de mais um encontro de governantes de vários países para debater aspectos socioambientais.

Porém não houve informação sobre alguns cientistas de vários países, empresários e políticos que eram esperados e deixaram de comparecer sem aviso.

Isto mudou um pouco o tom dos debates, pela ausência de vários críticos e céticos das questões abordadas.

Ninguém quis fazer comentários a respeito. Vários dos que não compareceram estariam sob a suspeita de manipular resultados para favorecer resultados comerciais.

Por coincidência, o grupo faltante costumava conseguir espaço em jornais, revistas e programas de televisão declarando publicamente que o aquecimento global seria uma grande bobagem e que a poluição não é grave e que a destruição abusiva e descontrolada dos recursos naturais não teriam qualquer influência sobre o clima do planeta. Alegavam que tudo seriam ciclos naturais e que a raça humana não teria influência nenhuma em quaisquer mudanças. Ao contrário do que os estudos da ONU e vários grupos internacionais indicam.

Algumas grandes corporações que haviam patrocinado eventos culturais destes cientistas foram procuradas pela imprensa negaram ter qualquer outro tipo de contato com estas pessoas, em momento algum. E nem que soubessem de suas atividades.


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15/06/2012
http://gilbertostrapazon.blogspot.com

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Em Busca de Um Grande Amor








Em Busca de Um Grande Amor
Gilberto Strapazon


Mais um dia ensolarado lá fora.
Lucia olhava a rua pela grande vitrine da loja de perfumes. Ambiente simples e bem distribuído, brancas prateleiras e vitrines que apresentavam os delicados frascos.
Parece uma enfermaria perfumada, pensou ela de novo. Com certeza a decoradora deve achar que um visual clean não precisava de umas almofadas, umas cortinas e tapetes coloridos.
Do outro lado da rua, a mesma praça com seus canteiros floridos e bem organizados. Algumas pessoas já andavam pelas ruas e os poucos carros que transitavam pela manhã pareciam ir a lugar nenhum.
Ela olhou um Jaguar que passava. O motorista tinha uma aparência solitária e olhou para a vitrine da loja enquanto passava.
Lucia pensou se ele a perceberia, quem sabe. Ele era bonito, seus ombros eram largos.
Com certeza a decoradora não deve saber muito sobre pessoas pensou ela.
Aquele homem poderia entrar na loja, pensou sentar comigo num confortável sofá. Mas não tem nenhum aqui! Só estes malditos bancos altos.
Alguém esqueceu que perfumes induzem sentimentos também. Então por que não aumentar isto com um espaço confortável?
Ele poderia segurar na minha mão. Sentiu um calor no baixo ventre. De novo.
Não ali, não. Poderiam vê-la pela vitrine.
Mas se fosse com ele, talvez não importasse.
Faria uma loucura ali mesmo.
Puxou o ar e uma fragrância doce misturada com outra amadeirada a fez pensar que talvez ele gostasse daquele cheiro espalhado no seu peito.
Seria peludo? Ela adorava homens peludos. A barba bem feita, os braços fortes carregando-a no colo.
Adorava quando a seguravam pela cintura estreita. Sentia-se tão pequena e protegida.
Alguém entrou na loja. O jaguar já havia passado a muito. Era uma adolescente usando umas roupas em estilo gótico, muito bem feitas. Uma vendedora foi atendê-la enquanto Lucia observava de canto e cuidava do movimento na rua.
Logo notou que a vendedora e a cliente pareciam mais íntimas.
Lembrou-se dela.  Foi numa loja de roupas ali perto em que esteve por algum tempo.

Qual era o nome dela? 

Lembrava-se do cheiro do corpo dela naquela loja.
Ela não percebeu a presença de Lucia ao lado quando entrou no provador com uma das atendentes.
Levava um bonito conjunto de lingerie, corpete, sutiã. Estava com um vestido bem curto. A bainha tinha rendas que deixavam a mostra mais do que deviam. A pele dela era branca, muito branca.
Ela notou que havia marcas aparentes de palmadas aparecendo bem no alto das coxas. Imaginou o desenho dos dedos em roxo na bunda dela.
Ela tinha um jeitinho meigo. Se estivesse de terninho passaria por uma colegial insonsa.
Escutou elas conversando baixinho enquanto provavam as roupas. Escutou os estalinhos de beijos molhados, a respiração abafada. O cheiro do sexo surgiu no ar.
Lucia apenas escutava e por uma fresta na cortina do provador pode ver as duas. A cliente se esfregava na vendedora pelas costas. Tinha alguma coisa numa mão que passava nas pernas dela enquanto a outra segurava o queixo dela para trás. Parecia morder a nuca dela.
Ficaram algum tempo ali. Lucia não podia sair dali.
Quando saíram pelo outro lado, a cliente disse que ia levar todas as roupas e foram para o caixa. Enquanto pagava com o cartão de crédito, olhou direto para onde Lucia estava por um longo tempo. Ela sabia que Lucia estava ali. Depois veio até ela e com um sorriso maroto passou o dedo pelo seu rosto e desceu lentamente entre seus seios até o baixo ventre. O calor que já sentia no ventre aumentou. Mas a cliente apenas deu um sorriso, mordiscou o lábio e saiu sem nada falar.


Era ela sim. A mesma moça da outra loja. Tinha pintado as bochechas num leve rosado ou alguém teria batido no seu rosto. Os olhos pareciam curiosos. Os brincos eram metálicos, mas muito delicados.
Agora se encontraram na loja de perfumes. Será que viu Lucia ali junto da vitrine? Lembraria dela?
A vendedora parecia muito entusiasmada mostrando alguns perfumes muito caros.
Na praça um casal de meia idade sentou-se ao sol. Ela tinha uma flor nas mãos. Estava na cara que estavam de férias. Olhavam para tudo um pouco, riam às vezes. Ele segurava na mão dela.
Lucia tentou lembrar-se de uma mão apaixonada segurando na sua. Esse sentimento era como um buraco no seu peito. Gostaria de uma companhia, alguém para cuidar. Repartir uma xícara de chá nos dias frios.  Fazer amor no chuveiro ou tricotar uma blusa para ele.
Sim, faria isso. Uma blusa tricotada com alguns fios do cabelo dela. Escutara as carolas de a igreja sussurrarem isto para as filhas segurarem seus noivos. Casamento garantido! Diziam elas segurando seus rosários. 
Lembrou-se daquele executivo todo sério que a abraçou certa vez. Ela quis fechar os olhos e fugir. Queria tanto, mas tinha medo como uma adolescente. Ele foi rápido. Molhou a roupa dela sem constrangimento e depois saiu para nunca mais voltar. Mais um entre tantos.
Como era o nome do filho do dono daquela distribuidora? Ele a deixava toda amarrotada. Quantas vezes precisou limpar até o cabelo correndo. Taradinho, mas muito carinhoso.
A cliente apanhou um pacote no caixa. A vendedora estava discreta ao seu lado. Ali não havia nenhum lugar reservado. Ela parecia um cãozinho esperando um petisco da cliente. Foram até a porta e discretamente, a cliente deu um leve beijo na boca da vendedora. Abriu a porta e quando ia sair, virou-se e olhou direto para Lucia.
O mesmo olhar. Sentiu o calor invadir seu corpo. Ela lembrava. Aquele sorriso maroto e cheio de segredos. Voltou para dentro da loja, a vendedora veio junto. Foram até perto da vitrine. Ela olhou um frasco alto, de cristal e olhou para Lucia de lado. E a tocou de novo, disfarçadamente. A mão encostada no seu ventre era macia, quente, muito quente.
Pensou que fosse desmaiar. A vendedora não havia notado.
A cliente deu uma risada alta. Os olhos negros no meio do estreito rosto, a pele muito branca. O decote. Ela tinha uma marca roxa entre os pequenos seios.
Afastou-se e foi embora.
A sensação era boa, mas não era o que Lucia queria. Talvez um flerte quem saiba. Ela queria que algo a preenchesse. Um parceiro, filhos, uma casa com varanda.
Só percebeu o movimento de relance e o estrondo.

Horas depois as vendedoras ajudavam a limpar a loja. O caminhão que subira na calçada fizera algum estrago, mas não machucara ninguém felizmente.
A gerente mandou a vendedora tirar o manequim da vitrine. Ia aproveitar o acidente para fazer uma pequena reforma na decoração, colocar alguns tapetes e quem sabe um bar lá no canto. Uma área reservada para conversar a sós com clientes vip.
E já tinha até uma interessada em comprar o manequim que felizmente não quebrara com a batida. Uma cliente meio-maluca, destas adolescentes góticas que às vezes passava por ali.



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terça-feira, 19 de junho de 2012

A Estagiária




A Estagiária
Márcio Chacon

        A sala estava lotada de gente. Os funcionários se espremiam nas paredes com seus pratos plásticos esperando uma fatia do tão disputado bolo de aniversário. O serviço iria ser paralisado por cerca de 30 minutos... Um intervalo irrelevante afinal era o aniversário do chefe. Homem bom, diga-se de passagem. Sujeito sério e de poucas palavras, mas dono de um coração grande. Tempos atrás vencera uma forte disputa contra homens que agora estavam ali alegres e o felicitando. Em poucos minutos a secretária ingressou na sala trazendo o bolo sendo seguida pela nova estagiária que trazia as bebidas. O chefe então fez um comentário sobre a roupa nova de sua secretária e gerou a risada de todos com exceção da compenetrada estagiária que enchia os copos dos convidados de maneira cirúrgica. Após o bolo estar todo nas mãos dos funcionários foi a vez da estagiária entrar em ação e servir suco e refrigerante a todos na sala... Em especial ao aniversariante do dia. Antes de saciar a sede aquele homem pensou em algo bacana para dizer a seus funcionários... Algo digno de um líder para seus subornados. Estava prestes a realizar um grande discurso quando sua secretária esbarrou sem querer nas suas costas fazendo-o derramar sua bebida em cima da pobre estagiária. Por alguns segundos todos ficaram sérios esperando o pedido de desculpas do seu chefe todo sem graça. Ele fez questão de ajudá-la a secar sua blusa e ainda brincou dizendo que iria aumentar o valor do seu salário para comprar roupas novas. Outras piadas foram surgindo e aos poucos o incidente foi passando despercebido. Todos na sala riam sem parar... Principalmente a precavida estagiária que havia guardado bastante veneno e teria muitas outras oportunidades para matar seu chefe.