terça-feira, 28 de agosto de 2012

Realmente É Uma Pena

Commit No Nuisance
Arte digital: Allison712 (USA)


Realmente É Uma Pena
Gilberto Strapazon




Aquele padeiro tem alguma coisa de especial...



Eu me chamo Jack. É assim que todos me conhecem.
Desde pequeno sempre tive uma atração por culinária e nisto, sou realmente muito bom.
Especialmente por pães. A massa crescendo, a textura ao ser preparada, as cores que recebe ao ser assada e o resultado final, quando o pão ainda quente é devorado pelas pessoas.
Observo cada um dos seus movimentos e sei exatamente como elas são pela maneira que tratam o pão.
Muitos se importam apenas consigo e devoram sem o menor constrangimento. São assim em tudo que fazem.
Outras são piedosas e fazem uma oração ou comem cada pedaço com devoção como se fosse algo muito importante para o pão.
Aprendi estas coisas.
E descobri que nem sempre aquilo continuava depois da refeição.
Ninguém deixa um único farelo cair no chão, pelo menos acho que estão ficando educadas.
Muitas destas pessoas que parecem piedosas, logo passavam sem hesitar por cima das pessoas, eram maus chefes ou colegas.
Os que se parecem egoístas às vezes são ótimos vizinhos. Muitos participam em atividades voluntárias para ajudar os demais.

Interessante. O fermento que elas comem junto com a massa tem dado efeito.
Tenho estudado este fermento desde aquela primeira vez.
Foi fantástico.
E funciona muito bem. Sempre tem fila para pegar o pão recém-saído do forno. Nunca sobra para colocar na prateleira.
Aprendi sobre fungos, sobre bactérias, as águas usadas, a temperatura.
Fazer a massa com as mãos é uma experiência fascinante. As mãos devem estar limpas, as unhas bem feitas.
Apenas o que eu colocar deve fazer parte da massa. Um pequeno erro e os resultados serão imprevisíveis.
Observo o ciclo da Lua e até comprei uma grande fazenda com uma parte da herança que me deixaram, só para poder encontrar alguns raros tipos de cogumelos que ajudam na fermentação.
Pães exóticos, pessoas diferentes ou comuns. Tanto faz. São todos parecidos de alguma maneira.

Ouvi um barulho lá fora. É cedo ainda e os fregueses sabem que não devem aparecer aqui antes do pão sair do forno.
Saio pelos fundos, vejo a mulher caída no chão. Deve ter desmaiado.
Não tem mais ninguém na rua.
Cabelos longos, corpo generoso. Carrego-a nos braços para dentro.
Bonita, deve ter orgulho de seus traços.
Faço uma rápida inspeção por baixo de suas roupas.
Parece estar bem, está limpa pelo menos.
Os olhos estão ficando cinza. A respiração rápida mostra que ela está a um bom tempo sem comer sequer um pedaço de pão.

Elas parecem demorar a entender que precisam ter uma vida regrada.
É uma pena. Ficam bonitas e deixam tudo para sair pela noite, andam por aí.
Mas tudo tem um tempo certo.
Coloco minhas luvas, não quero contaminar a massa crua que está crescendo.
Preparo uma porção especial, com alguns grãos a mais do cogumelo que cultivo na fazenda. O crescimento é muito mais rápido que o da massa normal. As cores são sempre fantásticas, mas tenho trabalho a fazer.
Pego uma minúscula porção da massa que cresce rapidamente e toco nos lábios dela. Em alguns segundos eles mudam de cor, ficam mais vivos, ela suspira. Logo a boca se abre e engole a massa crua que já havia triplicado de tamanho no contato com a mucosa da boca.

Asso rapidamente a porção que fiz em separado enquanto tiro a roupa dela. Às vezes penso que deveria gostar disto, mas trabalho é trabalho.
Ela fez uma tatuagem na virilha.

Tiro o pão assado do forno. É bem fino, como o dedo de uma moça e o comprimento vai do queixo ao sexo da mulher.
Ela está acordando e coloco o assado já morno entre seus seios.

Demoraram uns dois segundos até ela perceber o calor na sua pele. Os olhos se abriram com de um sono profundo, suas pernas roçaram uma contra a outra.
A massa estava se unindo a pele dela.
Ela gemia enquanto os olhos gradualmente ficavam mais claros e brilhantes.
Admirei por um instante a cena, mas já estou acostumado com isto.
Logo mais ela vai esquecer-se do que houve e vai estar na fila do pão junto com os demais fregueses. Todos os dias.
Espero que desta vez aprenda um pouco mais sobre viver em sociedade e cuidar de si mesma.

Acho que as coisas vão bem. Gosto de fazer pão.
E os fregueses nunca vão muito longe.
Todos sabem que pão é o primeiro e principal alimento para todos.


.’.
28 de Agosto de 2012

domingo, 19 de agosto de 2012

Os Últimos Vampiros




Os Últimos Vampiros
Gilberto Strapazon


À medida que o grupo corria pela floresta, era evidente que os rastros das criaturas que perseguiam desapareciam a cada tronco caído, cada riacho.  Fracos sinais, mas eram suficientes.

Faltava pouco mais de uma hora para amanhecer e estavam desde as nove da noite perseguindo as criaturas. Duas delas tinham sido feridas e seus rastros mostravam que não podiam estar longe, apesar de ainda conseguirem uma pequena vantagem saltando ao esmo entre pontos da mata, cada vez mais espaçada entre as pedras do vale.
Restos de um coelho semidevorado confirmaram aos caçadores que seus alvos estavam cansados e sedentos. Não poderiam resistir muito e precisariam tentar se esconder. O vale que logo mais se abria num grande prado aberto não teria como escondê-los por muito tempo.

Encontraram um boi assustado, levemente ferido. Era evidente que as criaturas tentaram atacar o animal, mas não foram páreo para ele desta vez. Nos chifres havia marcas de sangue. A lanterna mostrou que aquele sangue era muito escuro, tinha uma consistência quase gelatinosa e com toda certeza não era do animal.
Sorriram com a descoberta e pararam alguns instantes para recuperar o fôlego. Sentiam que estavam próximos.

Eram experientes, todos eles. Treinados para reconhecer as artes das trevas e driblar todos seus seguidores que por gerações haviam infestados tantos lugares do continente.
Agora havia apenas dois. Aqueles dois.
O leve cheiro do sangue que manchava as costas do animal lhes lembrava de que as criaturas também o desejavam. Olharam-se por um instante e com a cumplicidade de uma vida de experiências juntos, todos ao mesmo tempo, passaram as mãos nas costas do animal, que agora estava mais calmo. Passaram aquele sangue bovino em suas mãos. Sabiam que a brisa levaria o cheiro à sua frente e faria as criaturas se distrair. Estavam feridas, cansadas e famintas. 

Depois de uns minutos, num pulo jogaram-se a frente com a certeza da direção a seguir. Sentiam um magnetismo que lhes mostrava a direção sem hesitar.
Agora eram como uma matilha de lobos cercando sua presa.
O vento ia à sua frente levando seu cheiro de sangue por uma ravina estreita.

Minutos depois as criaturas foram cercadas. A mulher tinha a lateral do corpo rasgada, certamente pelos chifres do boi que encontraram. Ela e o rapaz tentaram esboçar movimentos de defesa, mas cansados e atordoados pelo cheiro de sangue ao seu redor não foram suficientes rápidos para se esquivar das afiadas lâminas de todos os tipos que cortariam seus corpos em pedaços.

Os sons da carne mastigada por machados e espadas parecia o de grandes frutas esmagadas entre pedras. Os ossos que se partiam a cada golpe só não faziam mais barulho porque ainda havia energia para os últimos gritos que pouco duraram.

Os caçadores sempre cortavam a cabeça por último, pois era mais importante imobilizar a presa, evitar que corresse ou tentasse se defender agarrando-se a algo ou alguém.

O massacre iniciou. De início, curtos machados voaram certeiros atingindo as pernas e derrubando os dois no chão. Logo vieram espadas e machados que acertavam os braços e os ombros.
Tudo era feito de forma precisa. Um massacre praticado e aprimorado por gerações. Um ritual para destruição de cada parte maligna daquelas coisas malditas.

Eles sabiam o que faziam e os gritos das criaturas que caiam se debatendo com o que ainda sobrava de seus corpos, afugentava da floresta qualquer criatura ou espírito num raio de muitos quilômetros.
Horrendos, um misto de sons muito agudos de metal sendo arranhado e rasgado com arrotos demoníacos das bocas escancaradas que ainda tentavam vociferar maldições contra seus atacantes. Inúteis tentativas de invocar os senhores das trevas e as demais criaturas para sua defesa em palavras de uma língua impossível de descrever ou entender.
   
Golpes fortes abriram o ventre expondo podres intestinos recheados de coisas como se fossem vermes. Os pulmões ainda davam ímpeto aos brados que anunciavam calamidades para todos.
Eram apenas ameaças que nunca mais afetariam ninguém. Mas suficientes para enlouquecer de pavor qualquer um que não estivesse firmemente sustentado por uma fé inquebrantável. Ninguém esquecia aqueles gritos, nunca. Eram como um flagelo para a alma.

O machado abriu a virilha de uma das criaturas e destacou o que sobrou de uma das pernas. A mulher ainda tentava rolar o corpo já era reduzido a ao tórax, pedaços de seios esfacelados em tiras e uma cabeça que parecia ter se tornado apenas em boca e dentes. Enormes dentes.

Os caçadores pararam por um instante. A carnificina não tinha terminado, mas por um instante o espetáculo de carnes e ossos esmagados e o fato de serem os dois últimos exemplares de uma espécie que seria imediatamente extinta, fez-se maior e precisava ser contemplado.

Uma última visão da raça humana para aqueles seres amaldiçoados que chegaram numa estranha noite de tempestades e chuvas de meteoros, num passado muito distante. Não se sabe de onde vieram, mas tornaram-se terríveis predadores, dissimulados e muito perigosos. Misturaram-se como se forasteiros fossem. Bons negociantes, bonitos, inteligentes. Mas logo os acontecimentos e os rastros que deixavam foram revelando sua verdadeira face. Até que passaram a ser caçados e perseguidos, num trabalho de gerações.
Agora estavam ali as duas últimas carcaças imundas que insistiam em bradar a escuridão que tinham dentro de si, pois era impossível que tivessem alguma alma, exceto a treva maligna dos demônios que os inspiravam.

O sangue espalhado se misturava com a terra formando um barro negro. Os caçadores sabiam que ali nada mais brotariam por décadas.
Invocaram a proteção Deus altíssimo e sua luz misericordiosa.
Logo um machado, depois outro, abriu o peito de cada criatura e lanças ajudaram a expor o coração que ainda pulsava como se fosse um sapo deformado.
Parou de novo o massacre. O coração das criaturas parecia realmente um sapo, deformado e com partes que se moviam como se fossem pequenas patas.

Então a lamina de um machado acertou em cheio o rosto de cada criatura e cada pedaço de seu rosto e crânio foi esmagado e retalhado. Os olhos se mexeram até que fossem arrancados das órbitas e cortados com as espadas. O líquido negro de um deles escorreu dentro do resto de uma das bocas. Pedaços de mandíbula e língua mastigaram o próprio olho.
Era um pesadelo ver aquelas carnes podres e despedaçadas mastigando a si próprias.
Cortaram o que sobrou da cabeça e do pescoço esmagado e concentraram as lâminas de todas as espadas sobre os corações que foram espetados e cortados ao mesmo tempo. Os pedaços pareciam tentar pular sozinhos por algum tempo ainda.
Os machados terminaram o trabalho de destruir cada pedaço de osso que ainda estivesse inteiro.

Tudo parecia um grande caldeirão de podridão moída.

A noite era fria, saia vapor da boca dos caçadores. Mas absolutamente nenhum rastro de calor havia saído dos restos das presas abatidas. Seus corpos eram frios como a morte e mesmo os restos imóveis eram atentamente observados. Nenhum pedaço poderia escapar. Não se arriscariam com as artes do demônio.

Sentaram-se ao redor e esperaram os demais que vinham bem mais atrás.

Cerca de uma hora depois foram alcançados por um grupo maior, que trazia grandes bolsas. Imediatamente as abriram e surgiram muitos panos e pequenos barris, cheios de água que fora santificada pelos sacerdotes.
De outras vieram roupas limpas.
Todos trataram se se limpar e trocar de roupa.

As roupas sujas foram empilhadas sobre os restos lamacentos de vísceras, ossos esmagados e carnes retalhadas.
O que fora um olho pareceu se mexer debaixo de um resto de mandíbula e imediatamente gritos de alerta chegaram junto com lâminas que reduziram aquele destroço amaldiçoado a fragmentos.

Ficaram em silencio. Todos se olharam e iniciaram uma silenciosa oração enquanto três deles derramavam querosene ao redor dos restos. Fizeram uma linha circular de pelo menos um metro de largura ao redor dos restos. Dentro do espaço circular, passaram a jogar galhos secos e madeira que alguns cortaram rapidamente logo que chegaram ao lugar. E por último ao redor de tudo, um grande círculo de sal e outro de água benta de um dos pequenos barris.
O céu já estava claro e olhando na direção do sol nascente, mas sem deixar um único instante de cuidar de cada centímetro do amaldiçoado espaço clamaram em voz alta a Deus e agradeceram por terem concluído sua tarefa.
Salmos foram lidos e cânticos em hebraico e latim invocaram as forças divinas.

Mais barris de querosene foram despejados sobre a grande pilha.


Vampire Massacre
Foto: Alex Scaparro
Quando um galho em chamas voava para dentro do círculo, por um instante o caçador enxergou a ponta do mamilo da mulher que estava no meio das carnes. Dele escorria leite.


Imediatamente a chama transformou aquilo numa grande massa de fogo que se ergueu de forma assustadora como se fosse uma enorme serpente, muito acima das copas das árvores.
Clamando pelos grandes poderes da Luz, todos mantiveram uma distância segura enquanto aquela enorme serpente de fogo mudava de várias cores. Vermelho, verde até que a grande chama ficou num tom azul e seu interior parecia à escuridão da noite. Já era dia, mas assombrados todos olhavam para aquela imagem dentro do fogo, como se fosse um negro céu estrelado por alguns instantes e que se desfazia em faíscas sobre si mesmo.
Gritos terríveis eram ouvidos vindos de sob as madeiras que ardiam. Todos se olhavam em silêncio, pois sabiam pelo tempo, que aquela podridão se mantinha viva de alguma maneira até que fosse totalmente extinta e transformada em luz pelo poder do fogo purificador do Santo Deus Pai.
Por horas continuaram a colocar madeira para alimentar o fogo. E mesmo muito tempo depois que nenhum outro som era ouvido.
As brasas foram remexidas vezes e vezes sem conta. Usavam longos galhos de madeira como ferramentas e mais troncos eram colocados para queimar. 
Por causa do intenso calor, a terra sob a fogueira secou até que a areia em certas partes derretesse e formasse vidro que era imediatamente quebrado e reduzido a pó. Não podiam arriscar que algum feiticeiro ou bruxa viesse depois pegar aquele vidro para usar nalgum tipo de artes mágicas.

Assim foi por todo o dia e mais a próxima noite, apesar de exaustos, até que no segundo dia só havia uma montanha de cinzas no lugar.
Haviam se revezado na vigília enquanto alguns dormiam e se alimentavam para recuperar as forças.

A volta da presença de pássaros na floresta e outros pequenos animais foi um primeiro sinal da natureza de que as energias do lugar estavam melhores.  Nenhum animal teria ficado perto de tais forças do mal.
O lugar foi então marcado com pedras e uma grande cruz para alertar a qualquer viajante sobre o que havia ocorrido ali. A terra calcinada do lugar se tornara como areia seca.

Voltaram à cidade, cansados e pensativos. Tinham terminado com a tarefa que iniciaram centenas de anos antes e finalmente, todas suas famílias poderiam iniciar uma nova caminhada e regressar também aos seus afazeres preferidos.

II

O líder do grupo chegou a casa, sua esposa o recebeu feliz e com roupas limpas e um banho em que ele demorou-se longamente.
Estava em casa e novos tempos viriam para todos.
Ela o abraçou com uma toalha macia e secou seu corpo com carinho e afeto. Seus olhos eram doces e meigos.
O amor deles tinha começado na infância. Cresceram juntos e sua intimidade como homem e mulher era completa. Compartilhavam tudo, seus estudos e espiritualidade.
Entre carícias, conversaram sobre aquelas coisas que os apaixonados entendem sempre. Carinhosa e apaixonada ela o tocava sem pudor, sempre desfrutando de cada momento juntos para pequenas intimidades que faziam parte de uma vida feliz a dois.
Ela serviu uma refeição leve que havia preparado, com pão fresco e saladas.
Depois foram para a sala ela serviu um saboroso chá quente, de ervas e frutos da floresta, que bebeu junto dele aconchegando-se nos seus braços. 
Logo ela se enroscava abrindo o roupão dele e beijou seu corpo com uma perícia que uma vida juntos tinha enriquecido. Ambos vieram de famílias tradicionais e de longos estudos. Tinham aprendido nos grandes livros sagrados e estudado o Amor nas suas várias formas mais elevadas.
Satisfez-se com o corpo dele que tremia de prazer a cada beijo e carícia.
Puxou-o pela mão e fez com que se encostasse à parede, pegou um dos seus belos chapéus de caçador e colocou sobre sua própria cabeça. Os cabelos longos davam um toque sensual para seu belo corpo. O chapéu contrastava com sua pele branca e macia e dava um aspecto bastante exótico.
Ela abriu seu vestido encostando-se a ele toda. Acomodou cada parte do seu corpo junto ao dele.
Beijou-o longamente contra a parede e desceu pelo seu corpo. Beijou e sugou cada centímetro de sua pele tocando-o com maestria. Logo recebeu seu gozo entre gemidos e suspiros de satisfação.
Ele tremeu e por um instante veio a sua lembrança a imagem daquele mamilo na fogueira, jorrando leite sem parar. Donde viria aquilo se nada havia além de uma lasca de pele? E jorrou até que a chama o reduziu a cinzas.
Distraído pelo prazer que recebera e pela lembrança inesperada, olhou para sua esposa.
Ajoelhada, com a boca úmida, ela abraçou suas pernas, encostando seu rosto contra o corpo dele enquanto continuava a beijá-lo.
Olhou para ele, seu rosto era uma expressão de satisfação e alegria. Os lábios molhados brilhavam.
Ela olhou para ele e disse:
-Adoro quando você me alimenta desta maneira.
Ele suspirou enquanto ela se levantou lentamente lambendo seu peito e empurrando seu corpo contra o dele. O cheiro de sexo tomava conta de tudo e ela usava um perfume que ele nunca soube dizer o que era, pequenos segredos de mulher. Era inebriante e muito convidativo.
Então ela pegou na cabeça dele, afagando suas orelhas e cabelo e beijou-o longamente de novo enquanto colocava a mão no bolso do vestido que apenas desabotoara pela frente. 
Ela colou a boca no seu ouvido, a outra mão segurava a cabeça dele, sussurrou.
-Estou orgulhosa de você. Sempre me alimentou como gosto, com teu prazer, e agora, me trouxe esse presente. Todos estarão tranquilos e vão esquecer para sempre aquelas criaturas.
Ela esfregava o sexo nele e sem que ele notasse, tirou um revólver do bolso do vestido.
De olhos fechados ele escutou satisfeito ela dizer que ia usar seus brinquedinhos, e sem perceber a arma, pensou que isto significava uma noite inteira de satisfação e fetiches com ela.
Mordiscando o rosto dele de leve e beijando seus olhos para que ficassem fechados, ela subiu o cano da arma aquecido pelo seu corpo até encostar debaixo do queixo dele que pensou ser uma das tantas brincadeiras que praticaram desde a adolescência quando começaram a namorar.
Então firmando um pouco mais a mão que segurava o cabelo dele e mantinha a cabeça em posição vertical ela olhou nos olhos dele e falou:
-Meu querido obrigado pelo seu sêmen, eu não preciso de dentes para me alimentar de vocês, humanos. Nenhum de nós. Aqueles dois que você pegou, foram os últimos da espécie que podia ser reconhecida pelos humanos.
O tom de voz havia mudado e subitamente parecia sarcástico e cortante como uma lâmina enferrujada. Apertou a cabeça dele contra a parede e olhando de frente disse:
-Nós evoluímos meu querido!
Ele lembrou do mamilo.
Num último momento ela viu nos olhos dele que tinha compreendido. Foi uma vida de espera as escondidas! E ela o pegara totalmente desprevenido. As pupilas dele se arregalaram. Então a bala atravessou seu queixo e arrancou o topo da cabeça.
Ela baixou a arma e usando apenas a outra mão mantinha o corpo em pé segurando pela lateral da cabeça.
Olhou por um instante a cabeça aberta ao meio. O topo do crânio tinha explodido pela parede até o teto
Então o puxou para si e juntando as duas mãos e bebeu dos restos de cérebro exposto pela bala.

Depois colocou a arma na mão dele e deixou o corpo cair sobre o seu. Ele era grande e muito mais pesado que ela. Explodiu em gritos tentando segurá-lo, mas o peso todo desmoronou e ela caiu junto ao seu lado enroscada no corpo ensangüentado já perdendo o tom de voz num choro convulsivo.


Alertados pelo barulho de um tiro na casa, os vizinhos chegaram correndo e entraram pela porta aberta.
A linda esposa do líder da comunidade chorava desesperada, completamente histérica agarrada ao corpo ensanguentado do marido que havia se suicidado na frente dela.
Gritava coisas sem sentido a coitada tentando ergue-lo. A cena era terrível e desesperadora. Rapidamente toda vila ficou sabendo do ocorrido e as pessoas chegavam horrorizadas.
Todos choravam tomados pela dor de tamanha tragédia e ninguém conseguia afastar a mulher do corpo já inerte.
Foi um longo tempo de tristeza no coração de todos e nenhum dos presentes esqueceu a imagem daquela coitada, belamente vestida e maquiada para seu marido, que misturada ao sangue dele se transformara no mais completo horror que uma perda tão terrível pode representar.

III

Eram o casal mais conhecido de toda região, apaixonados um pelo outro desde a infância e só tinham olhos um para o outro a maior parte do tempo.
Ela já havia falado muitas vezes ao sacerdote em confissão, sobre a preocupação de seu marido em tirar alguma vida, qualquer vida, mesmo que fosse a serviço do Senhor. Eram ativos membros da comunidade religiosa. Todos apreciavam seus conselhos e o seu próprio exemplo de vida feliz.

Mas ao regressarem da caçada, entre as comemorações pela destruição daquela espécie maldita, os mais próximos se esqueceram de que talvez ele não suportasse a sensação de culpa depois daquela última carnificina.
Todos lamentaram muito junto com ela, que nunca mais casou e mudou-se com toda sua família para bem longe dali.  

Todos compreendiam. E talvez a tragédia tenha seguido a tristeza que se abateu sobre aquela mulher, pois nos locais para onde foi com sua família, aconteceram epidemias de algum tipo de peste, novos tipos de gripe surgiram. E que dizimavam as pessoas.

.'.
Gilberto Strapazon
15/08/2012
http://gilbertostrapazon.blogspot.com


Arte: Adam Hughes


.'.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Dança Fúnebre




Dança Fúnebre
Cristiano Silva



Pobre do Arlequim

Que vive sem sua concubina

Alegra a todos sem poder se alegrar

Uma folha branca suja com nanquim.


E na alegre distração teatral

Seu sorriso anti-divinal

A alegria forçada perante a guilhotina

Nesta dança fúnebre.


Sua cabeça rola, feliz Arlequim

Alegria misturada com tristeza

Uma cabeça posta em uma bandeja

Um sorriso sarcástico a nos mirar.


A sensação estranha

De que em algum momento

Talvez em nossos sonhos

Nosso lunático amigo.


Nosso Arlequim

Venha com um sorriso sádico

E sua lâmina nos visitar.

-o-


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Super-Herói



Super-Herói 
Márcio Chacon


Já era tarde, mas a festa prosseguia bastante animada. Ela era a rainha da noite. Sua fantasia de Mulher Maravilha brilhava de longe e chamava a atenção de todos. Ela sabia que o foco de atenção estava todo canalizado nela. Seu corpo atlético era desejo de muitos naquela boate.
Nossa cobiçada heroína foi passeando lentamente até o bar onde pediu uma bebida.  Um Coringa apareceu totalmente embriagado e sentou ao seu lado. Sua pintura no rosto estava totalmente borrada. O suor havia destruído por completo sua demorada maquiagem e a cerveja já afetava seu modo de andar. Mesmo num estado lastimável aquele homem se ofereceu para pagar um drinque. Nossa Mulher Maravilha segurou o riso e aceitou que ele arcasse com a despesa. Assim que o barman chegou com os drinques ela pegou seu copo e deixou o pobre coitado falando sozinho.
Saiu do bar e foi desfilando com o copo lentamente pela pista de dança. Sua roupa brilhava tanto como as luzes daquela boate. Achou uma mesa vaga e sentou depois que acomodou o copo gelado ao lado do celular. Fitou alguns rostos, mas não achou nenhum interessante.
Um mascarado usando uma fantasia amarela apareceu e perguntou se gostaria de dançar. Nossa bela heroína chegou a pensar por alguns segundos tentando descobrir que personagem seria aquele, mas respondeu algo mais apropriado para aquele momento... Uma leve mentira:
- Não posso. Meu namorado está vindo.
Isso bastou para o mascarado sumir na multidão. Ela conferiu o celular mais uma vez... Recebia mensagens a todo instante.
No momento que estava deletando alguns recados outro herói apareceu. Ele era alto, magro e tinha olhos tão lindos quanto os dela. Usava uma fantasia de Super-Homem e tinha uma tatuagem tribal muito bonita na sua mão direita. Ele era bastante interessante e nossa heroína adorou sua abordagem. Aquele belo herói lhe deu uma rosa e pediu permissão para sentar ao seu lado. Cochichou no seu ouvido uma cantada meio infantil, mas que saiu até bonitinha para o momento. Algo do tipo ser especial, ser a escolhida, ser sua rainha para voarem juntos e conquistarem o universo. Aquilo já havia sido suficiente para trocarem alguns beijos.
Não havia mais necessidade para uma conversa até porque a música alta atrapalhava o diálogo e o entendimento das palavras que aquele Super-Homem dizia. Entre um beijo e outro veio o convite para saírem dali.
Ele sugeriu irem ao seu apartamento que ficava no décimo andar do prédio ao lado. A noite estava perfeita e sua sacada tinha uma vista linda.
Ela abraçou aquele Super-Homem e ambos saíram juntos da boate até o prédio do outro lado da rua.
Rapidamente entraram num prédio deserto e pegaram o elevador até o décimo andar. Dentro do elevador nossa heroína conferiu mais uma vez os olhos do seu Super-Homem. Eles já não brilhavam mais como antes. Talvez por causa da iluminação da boate ou talvez pelo efeito temporário de alguma droga que ele tivesse usando, mas quem se importaria com isso? Ele era lindo.
Assim que entrou no apartamento nossa Mulher Maravilha percebeu que não havia móveis nele. Havia apenas algumas caixas de papelão ainda lacradas. Rapidamente presumiu que aquele homem estaria se mudando.
Ele então abriu o vidro de sua sacada e a chamou para admirar a vista. Ela imediatamente foi até ele e enxergou uma noite linda, fria, silenciosa e muito bem acompanhada de uma lua que parecia ter sido desenhada para eles. Nosso herói tocou seu pescoço, acariciou seus cabelos e disse a coisa mais insana que alguém poderia dizer naquele momento:
- Voe.
Nossa Mulher Maravilha não entendeu bem a ordem, mas não disse nada. Apenas fez uma cara de alguém boiando na conversa.
Aquele homem mudou... Enfureceu-se. Puxou uma faca afiada do bolso, pressionou sobre seu rosto e gritou:
- Eu quero que você voe, Mulher Maravilha!
- A dor da lâmina entrando no seu rosto era forte e real. Aquilo era real. Não sabia o que fazer. Algumas lágrimas começaram a rolar sobre seu rosto e se misturar com o sangue provocado pela lâmina.
- O que você quer? Por que está fazendo isso?
- Eu sou o Super-Homem e você é minha rainha, mas para ter certeza eu preciso que voe pra mim.
A dor no seu rosto era gigantesca. Olhou para a rua, olhou para a boate... Ninguém ia escutar mesmo que gritasse. Além de estar longe a música da boate era muita alta e ninguém escutaria seu pedido por socorro. Segurou o choro e murmurou:
- Mas eu não sei voar.
- É claro que sabe. Você é a Mulher-Maravilha. Você é a minha rainha. Sabe quantas mulheres precisei matar para chegar neste momento? Muitas morreram no passado. Muitas foram reprovadas por mentirem. Não passavam de vagabundas usando a roupa da minha Mulher Maravilha... A sua roupa.
Neste exato momento nossa heroína percebeu que aquele homem era completamente louco e que tudo que falasse para ele seria em vão. Lentamente afastou a lâmina do seu rosto e subiu na pequena mureta da sacada. Olhou para baixo e simulou uma preparação de salto. Seu corpo tremia, seu rosto já estava totalmente pintado de sangue. Talvez no pior momento da sua vida também tenha surgido a melhor e mais absurda das idéias que já tivera:
- Eu não posso voar.
- Por que não?
- Eu sou sim a Mulher Maravilha, mas nunca voei. Assim como o Batman e o Robin. De todos os heróis que conheço o único que sabe voar é o Super-Homem.
O olhar daquele homem mudara. As palavras dela realmente haviam afetado sua mente insana. Ele estava em dúvidas. Pensou por breves segundos, jogou fora sua faca e disse:
- Então eu vou saltar.
Nossa heroína permanecera em silêncio. Sabia dentro dela que o havia vencido. Usara uma resposta maluca para derrotar um homem maluco.
Aquele homem subiu na mureta posicionando-se bem ao seu lado.
- Vou te provar que posso voar. Que eu sou o Super-Homem.
- A Mulher Maravilha sorriu... Não por acreditar naquela afirmação, mas pela certeza que estava salva daquele doido. Aquele desgraçado jamais sobreviveria com a queda. Sua felicidade era a morte daquele homem.
- Aquele Super-Homem olhou para a lua e esboçou um salto. Parou e voltou a olhar para nossa heroína. Seus olhos voltaram a brilhar como antes na boate. Ele sorriu e perguntou?
- Quer voar comigo? Eu te levo.
E antes dela dizer não ou dela pensar em fugir dali... Antes de qualquer reação, aquele homem a puxou pelos braços e saltou. E então ambos caíram.

Sólidos Pensamentos





Sólidos Pensamentos
Cristiano Silva



Eu em meu recanto mais pacato


Na ausência de um amor


Fico horas admirando a paisagem

Marcas dos dias que vão com minha paz.


Na chegada noturna

Sólidos pensamentos em temor

Um pesadelo me atormenta de passagem

Fico em transe imaginando uma viagem

E ao meu redor um novo mundo se faz.


Intolerante como a luz clara escura da lua

Que ilumina as sombras espectrais

Vultos aterrorizam em minha retina

Adrenalina, opio, morfina, loucura

Gritos súbitos do perigo de um monstro atroz.


Que aterroriza a todos

Na passagem para a realidade

Quando a umbra se desfaz

E volto à realidade.


Com as mãos manchadas de sangue

Pedaços expostos em todos lugares

A sensação da monstruosidade

Que habita no íntimo de cada ser.