domingo, 19 de maio de 2013

Alquimia no Museu



Gravura em madeira
Albrecht Dürer - Alemanha
1471 — 1528


Alquimia no Museu
Gilberto Strapazon

"Alquimia trata da evolução do ser, não apenas da matéria." 



I


-Ora, até que este trabalho não é nada mal!
Ela olhava para as mensagens na tela do computador enquanto acariciava o livro pousado sobre suas pernas.
Poder estudar, trabalhar e ainda se comunicar com seus amigos de toda parte pelo computador era muito bom. Nem sempre tinha alguma coisa diferente naquele grupo, mas noutras vezes, beirava as raias do absurdo ou era apenas simplesmente agradáveis ao máximo.

Combinava com ela poder falar qualquer assunto sem muito pudor ou reserva com pessoas de bom nível. Pelo menos a maioria.


Potion's Exam
Foto: Stella Rothe (Lily) - Detroit, Estados Unidos
A capa do livro era de couro, muito antigo. Aquele era um dos tantos a que tinha acesso naquele museu. E agora guardava sempre consigo, e por precaução fizera cópias bem guardadas. O museu tinha coleções que raramente iriam ser vista pelo público. Livros que fizeram parte de bibliotecas particulares e ali estavam guardadas entre milhares de prateleiras com todo tipo de coisas que as pessoas comuns juntam pela vida. Era um museu das pessoas, coisas normais de todos. Mas e quem é normal entre milhares?

Pela porta aberta olhou um pouco para o corredor. Lembrou de quando tinha apenas uma sala minúscula perto do almoxarifado. Agora tinha uma sala ampla, mas continuava como antes cheia de caixas, papéis e itens a classificar por toda parte. Mudam os cargos mas a tarefa era a mesma. Só que com mais responsabilidades.
Passava os dias cumprindo suas tarefas e de vez em quando, ao olhar tantos pertences recolhidos, que representavam a maneira de viver de pessoas comuns, encontrava coisas que faziam parte de hobbies e interesses pessoais de cada um.


Coleções de todo tipo apareciam. Borboletas, caixas de fósforo, rótulos de refrigerantes antigos, selos de maços de cigarro, fios elétricos de todo tipo, estranhas peças mecânicas sabe-se lá de que aparelhos, amostras de minerais, objetos usados nalguma crença espiritual sabe-se lá de que lugar do planeta, roupas de balé, chapéus de palhaço, cordas de navio, coleiras de cachorro, etc. Difícil imaginar o que não se pode colecionar ao ver tudo aquilo. E talvez poucas seriam expostas nalguma mostra pública algumas décadas depois.

E as vezes se deparava com livros pessoais, cheios de anotações nas margens. Alguns encapados em tecido ou couro, enfeitados ricamente. Coleções raras, livros antigos. Novelas, enciclopédias, clássicos e outros quem nem imaginava que alguém tivesse lido alguma vez.


Certo dia, folheando um destes que percebeu por acaso, uma coincidência. Aliás, muito mais que isto. Tinha tudo a ver com a vida toda que ela teve, de bar em bar, de escola em escola, de um estágio para outro. Tantos empregos, amigos, pessoas e situações que aos poucos se acumulavam e formaram a vida que ela tinha escolhido.

Era um livro de um alquimista amador. Se é que existe algo de amador nisto.


II



Muitos alquimistas são apenas curiosos. Mas ao que soubesse, alquimistas ficavam tentando fazer ouro de chumbo, segundo os livros e revistas censurados pelos governos e igrejas. A história é contada pelos vencedores, pelos interesses de alguns. Ela aprendera que nem sempre censura significa algo puro, mas apenas a intenção de barrar algo inconveniente.Tremeu ao lembrar da inquisição e seus braços negros se extendendo até os tempos atuais.

Aquele texto era diferente. De repente, uma frase ao acaso, umas poucas palavras. Fazia um sentido impressionante com a vida pessoal dela. Parecia que aquela pessoa, quase cem anos antes a conhecia como a palma da mão.

"Lost" In Another World
Fotografia: Moonchild213 - Estados Unidos
Sentiu um arrepio na nuca. Todos pelos do corpo se arrepiaram. Todos. Gostava de seu corpo ao natural, não era dada a muitos tratamentos estéticos que tantas mulheres faziam. Mas aquilo mexeu com ela como se de repente todos seus hormônios tivessem fervido dentro de seu corpo. Era como se estivesse se apaixonando por algo que não concebia, uma sensação tão grande de plenitude e compreensão tomou conta dela que simplesmente fechou os olhos e deixou aquela sensação de prazer repentino tomar conta dela.


Milhões de notas musicais e estrelas dançaram dentro dela. Imagens, cenas épicas a envolviam como se fossem todas ligadas por cordões de uma luz indescritível e todos formavam uma grande teia cósmica da qual ela fazia parte e nela, tecia um grande casulo. Havia alguém mais naquela epopeia toda que parecia infindável, um jovem estudante distante dali, que conhecia pelas muitas conversas com pessoas de todas partes.

Ela entendeu que aquele garoto era alguém especial. Fazia parte daquele cosmos todo. Estaria onde fosse necessário quando estivesse pronto. Era teimoso e preguiçoso, precisava sempre de um estímulo para fazer as coisas. Agora ela sabia que havia algo mais naquela amizade e que ela nunca soubera explicar. Ele tinha uma missão e ela sabia o que devia ser feito. Muitas mudanças iriam ocorrer em todo planeta e os grupos sociais estavam por se tornar tão misturados que perderiam suas próprias identidades. Caos social e estagnação. Isto não podia acontecer.

Os olhos amendoados se abriram lentamente sobre o livro que agora tinha abraçado longamente sem perceber. Sentiu a antiga capa de couro macia como se fosse a pele jovem e fresca de uma mulher. Será que alguém tinha passado hidratante?

Quase todas as páginas tinham grandes anotações e desenhos adicionais feitos a mão. Ela tinha aberto o livro num trecho em que o antigo praticante havia escrito algo comparando "a obra" de forma direta e simples com o cotidiano. Falava que a "transformação" era possível e que isto se referia a própria pessoa e sua ligação com o mundo e as demais pessoas. Nada de ouro, nem chumbo. O alquimista falava de conseguir mudar sua própria realidade e talvez a dos demais de uma forma tão simples que de repente, tudo aquilo acendeu dentro da cabeça dela como um grande sol.
Nada de ouro! Ela era o chumbo que se transformaria em ouro. Era fazer algo diferente, agir sobre si e o ambiente ao redor.

Tudo estava de repente tão claro na cabeça dela.


III

Sempre que podia, viajava para diversos lugares diferentes. Acampava com amigos e o clima festivo fazia parte da caminhada que agora entendia. A alegria é parte da natureza. E sem perceber, cada um lhe ajudava de alguma forma nos passos que dava.

Os elementos, as coisas da natureza, as sociedades, cada pessoa, tudo era interligado e de uma forma tal que uma ação correspondia a outra de uma forma que os cientistas não percebiam enquanto ficavam garimpando migalhas meramente palpáveis. Se apenas levantassem os olhos de seus cálculos e prestassem atenção ao que estava ali, bem na sua frente!

Penetrou nalguns mistérios exóticos. Participou de grupos que tinham visão diferente do mundo. Conheceu rituais diferentes ligados a natureza, mas que lhe ensinavam também tanto sobre a civilização. Encontrava pessoas que pareciam tão esclarecidas para logo descobrir que aquilo era só uma casca de poesia decorada, de roupas escolhidas cuidadosamente para darem um ar psicodélico. Mas o interior daquela casca era tão comum quanto tantos.

Ela evoluiu e foi conhecendo as pessoas a medida que cada vez mais aprendia e praticava em si mesmo. Acendera o fogo da grande pira alquímica e os cadinhos refinavam dia e noite seu espírito.

Fez mulher adulta, construiu um lar aconchegante. Sua vida pessoal era regrada e cheia de atividades em várias áreas. Os filhos lindos de olhos azuis, como teriam sido as crianças da antiga Atlântida, pareciam saber de forma instintiva coisas profundas sobre as estrêlas e as profundezas do espaço sideral. 

Com o tempo, trabalhou sobre os ensinamentos registrados. Tinha quase tudo que precisava ali mesmo. Vantagem de trabalhar num museu. E ainda por cima, podia conversar com outras pessoas pelas redes de computadores a que tinha acesso. Para muitos eram conversas agradáveis. Para ela, era como lidar com os elementos químicos da vida. Passos de um grande trabalho.

E graças a tecnologia, tivera acesso a outros livros muito antigos. Engraçado como passara a perceber que muitos daqueles diagramas seculares, lembravam desenhos de placas de circuito de aparelhos eletrônicos,  apesar de usarem outra forma de energia e não possuirem as mesmas capacidades. Nalgum século a frente isto seria revelado também quando alguém conseguisse avançar o suficiente na prática daquela arte e os cientistas finalmente conseguissem entender seus princípios. 

Através dos estudos, aprendeu outras técnicas, linhas de estudo variadas. E pegou alguns atalhos, fez alguns acréscimos que considerou úteis.


Choosing book
Fotografia: Bárbara R. Lenfers - Brasil

De uma maneira que parecia puro acaso, conhecera aquela bibliotecária(1), que parecia tão dócil, mas tinha tanta coisa a ensinar. Olhava dentro dos seus olhos com uma intensidade que a desconcertava totalmente para logo parecer tão natural e relaxada como sempre. Era incrível como aquela mulher com seu corpo miúdo tinha conseguido acesso total e a confiança de tantos homens e mulheres ligados a pesquisa e as grandes corporações de toda parte.
A bibliotecária lhe indicou alguns livros muito raros, que poucos sabiam da sua existência. Aprendeu muito neles. Encontrou informações que depois foram recebendo nalguns pontos, as chaves verbais, que uniam as partes secretas daquele ensinamento hermético. Alguém acompanhava seu trabalho de longe, mas parecendo estar tão presente, as grandes irmandades secretas, e lhe transmitiam o significados ocultos de forma velada. Tinha que estar atenta aos simbolismos.

Numa das experiências, criou um pequeno "familiar", um assistente espiritual(2). Não fazia parte do livro, mas para ela ajudou como um grande atalho muito prático. Preferiu dar-lhe uma pequena massa corpórea, apesar de não falar, era agradável de se ver. Um ser sem forma, mas que parecia pulsar de vida no pequeno recipiente que era seu mundo. As anotações a respeito eram corretas e ele, de maneira simples as vezes, confirmava algo ou trazia alguma informação. Como todo assistente, era mudo, mas os resultados de seu trabalho noutras dimensões apareciam rapidamente.


Notas (1) A bibliotecária é a personagem do conto "Bocas Vendidas", do mesmo autor
(2) Familiar: Criatura espiritual gerada através de magia.


IV

Com o tempo, outros resultados começaram a surgir. Mudanças pessoais e profissionais. Oportunidades apareciam quando ela estava pronta para elas, estava ficando mais atenta a si mesma. Descobria na prática a sincronicidade de eventos que ocorrem quando se está em harmonia. Ter a mente objetiva. Havia mudado sua alimentação que agora era mais regrada, mais focada a um estado de espírito pacífico e saudável.

Philter of Transformation
Artista: LillaKattuggla - Acela Tesch - Suécia
Coletava ingredientes raros sempre que podia. Coisas pessoais de certas pessoas que um dia seriam importantes.

Caminhou pela sala, procurou no pequeno baú um pequeno vidro que guardara tantos anos antes. A saliva de um futuro diplomata, um beijo que colocara ali dentro. Aquele rapaz teimoso valera o esforço. Fizera a trajetória nos diversos escalões e se dirigia ao contato com governantes de toda parte.

Passaram muitos anos desde então. Ela trabalhava sem ele saber, em várias áreas.

Acariciava a capa do livro. Nunca esquecera daquela primeira grande sensação quando o encontrara. Ela teve muitas outras experiências onde as sensações foram fantásticas, mas aquela primeira descoberta de si mesmo e de todo o universo que a rodeava, estavam marcadas em suas memórias para sempre.

Observava as mensagens na tela do computador. A pequena criaturinha, o assistente, parecia balançar, quase uma dança, dentro do recipiente sobre a mesa. Se tivesse rosto ela pensaria que aquilo parecia um sorriso. Voltou os olhos para a tela. Os canais de notícias já estavam divulgando os resultados do evento.

Aquele beijo quase casto, de tanto tempo atrás tinha mudado algo no mundo. Ela via que muitas pessoas, até nações inteiras seriam beneficiadas com aquilo.

Uma janelinha se abriu na tela do computador, com uma mensagem enviada pelo comunicador-telefone do velho amigo teimoso. Ele dera uma escapada em meio a toda formalidade do encontro de líderes durante aquele evento para dizer "Olá" e que estava feliz com tudo aquilo, mesmo que não acreditasse muito. Na verdade nunca vira muito diferença entre andar por palácios e embaixadas pelo mundo ou dar aulas para uma turma divertida nalguma universidade.

Ela respondeu com um elogio. O tratado havia sido assinado. Foram oito anos de trabalho em vários países.

Ela lembrava do toque tímido, da pele dele, naquele único encontro tantos anos passados. Seus braços agora eram os de um homem e ela deixou-se levar pela imaginação e com a sensação de calor que subiu pelo seu ventre. Até que ele era atraente. Fora até lá buscar sua saliva e assegurar-se que ele estaria encaminhado para o que deveria fazer. Agora ele tinha família, muitos filhos, estava sempre em boa forma apesar de tanto tempo viajando entre um país e outro.

Deixou-se excitar. Digitava com uma mão enquanto trocavam mensagens carinhosas e de amizade. Algumas brincadeiras ainda juvenis, sinal de muitos anos de convivência, mesmo distante. Outras mais picantes. A mão dela se agitava freneticamente. Já era tarde e não tinha mais ninguém no museu. A roupa formal se abrira. Era agradável imaginar que ele estava nalgum canto de um grande salão de convenções enquanto ela lhe dizia que estava apreciando o momento. Mesmo que ele nunca a tivesse tocado além daquela vez, sempre que podiam, trocavam confidencias e intimidades.

Combinava com o ronronar que a criaturinha agora fazia em cima da mesa. Ela notou por um instante que a pequena coisinha estava fora do seu recipiente normal, mas não se importou.
Voltou para as mensagens no computador. Do outro lado do mundo chegavam as mensagens descrevendo algumas das personalidades presentes ao evento. Presidentes, grandes empresários, cientistas, líderes das maiores religiões do planeta. Jornalistas andavam por toda parte. Fórum Mundial Unificado. Quem é que inventava esses nomes estúpidos? Mas aquele realmente era um momento muito especial, algo muito grande.
O grande tratado havia sido assinado e países com posições políticas tão diferentes haviam se rendido em comum acordo.
Tentou mandar uma mensagem para a bibliotecária. Por acaso ela esteve na cidade do grande fórum durante alguns dias antes. Engraçado como uma assistente comum como aquela conseguia ser levada para trabalhar em tantos eventos.


V


Ela entendeu o que significava a realização da grande obra. Todo aquele aprendizado. Era isto que aquela pessoa que redigira aquele livro com tanto cuidado estava fazendo no seu tempo. Preparando a continuidade do trabalho de séculos, de tantos alquimistas.
A Grande Obra é uma continuidade de aprendizados e realizações que uniu eras distantes até o presente.
Agora, ela concluíra aquele grande passo. Parecia haver outros nas leituras do livro. Mas ela ainda entendia muitos daqueles símbolos secretos. Quem sabe fossem referências a algo ou alguém que nasceria (talvez um messias) e seria alimentado com o fruto íntimo da vida que chegaria quando a obra se realizasse? Tinha as vezes a impressão que seria algo ligado a transmissão da vida entre uma pessoa e algo totalmente novo.
Mas também por vezes pensava se alguns daqueles atalhos que tinha tomado teriam deixado escapar algo que podia ter aprendido? Não comentava sobre isto com a bibliotecária, mas com tantas coisas que aquela mulherzinha dava a entender que fazia, então porque ela não poderia ter um pouco de iniciativa também?

Percebeu um som um pouco mais alto. Ouviu um roncar diferente que lhe tirou do seu devaneio. Seu corpo estava suado e a respiração ainda ofegante. Passou a mão entre as pernas úmidas. O cheiro do seu prazer inundava a sala.
Olhou ao redor por algum tempo antes de perceber que era seu pequeno amiguinho, o assistente espiritual que estava em cima da mesa. Fazia um som diferente, como um ronco, ela nunca havia visto aquilo. Quem sabe estivesse agitado também? Era sempre tão doce e prestativo.
Fez menção de se virar novamente para a tela do computador quando ouviu a voz nítida:
-Muito bem. Conseguistes realizar então a tarefa que te confiamos.
Ela virou-se rápido. Então a criaturinha falava? Ela agora estava de pé dentro do seu recipiente. Na verdade não tinha pés, mas estava erguida e uma protuberância em forma de uma pequena cabeça estava virada para ela.
Então a criatura, levantando-se mais ainda, passou a vibrar, fazendo um som oco de dentro de si.

Os olhos dela agora estavam arregalados. Ela nunca vira aquilo. Calafrios passavam pela sua coluna. Lembrou dos atalhos e de uma frase do livro, um alerta: "Natura non facit saltum!" (a natureza não evolui aos pulos).
A criatura mudara da cor castanho que sempre teve, como se fosse um hamster e ficou vermelha escuro.
Uma pequena boca surgiu, tinha muitos dentes, e disse num tom de voz surpreendente:
-Agora venha cá! Chegou o meu tempo e tenho fome, alimente-me!



Lab Rat
Arte digital: Pandatails (Oliver) - Estados Unidos




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P+
21/03/2013

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