sexta-feira, 7 de junho de 2013

Demônios

                                                                           





              Uma vez a cada milênio e num intervalo de sete dias, sete demônios detentores de um cosmo magnífico se reúnem num planeta ainda longínquo do conhecimento da raça humana. Durante este período eles discutem todos os eventos que aconteceram ou deixaram de acontecer em todos os 128 planetas da galáxia que ainda permanece sendo explorada por eles.

            Neste encontro é preparada uma grande mesa carregada de especiarias trazidas de suas incansáveis explorações. Diversos líquidos e elixires ricos em conhecimento e muitos alimentos capturados ainda vivos compõe um farto banquete.

            O demônio mais forte do grupo é conhecido como Tríclops. Seu poder é tão magnífico que estivera presente em diversas guerras e, praticamente sozinho, conseguiu dizimar diversos reinos.

            O membro mais antigo é chamado de Merak e o mais novo é Sirão. Sirão também é o mais fraco de todos no quesito força, poder e magia e sua forma física é a que mais se aproxima da raça humana.

            O líder deles é um monstro muito cruel conhecido como Cinzento. Sua maldade e conhecimento são tão fortes que ele é capaz de materializar um escudo de força ao seu redor. Secúlos atrás Merak chegou a ter um braço arrancado ao tentar desferir um golpe no seu líder e assim ganhar a liderança do grupo.

            No decorrer do banquete aqueles demônios narram e se vangloriam de suas viagens e explorações ao seu cruel líder.  Tríclops, por exemplo, tinha sozinho descoberto vida em um planeta bastante longínquo e em pouco tempo escravizara ele por completo. Merak, mesmo perdendo um braço e tendo o corpo marcado por diversas cicatrizes decorrentes de longas batalhas, desenvolveu uma incrível habilidade de manipular objetos usando o poder da mente. Graças e este poder ele fizera dois grandes asteróides se chocarem e provocar uma chuva de aerolitos causando inúmeros estragos em diversos planetas. Aos poucos demônio por demônio foi narrando suas conquistas até que chegou a vez de Sirão ser interrogado por Cinzento:

            - Então, Sirão... O que fizestes de importante no último milênio?

            Sirão se levantou e alguns até brincaram com a situação, pois aquele pequeno monstro mesmo de pé continuava pequeno diante dos demais membros da mesa. Ele sorriu e começou a admirar seu líder. Cinzento era realmente um demônio assustador. Tinhas olhos negros, presas afiadas e seu escudo de força era poderosíssimo.

            Seu líder repetiu a pergunta:

            - Sirão... O que fizestes de importante?

            Então o pequeno monstro respondeu:

            - Eu matei uma criança.

            Todos daquela mesa ficaram surpresos e então Cinzento exigiu uma explicação de Sirão que continuou seu relato:

            Andei num planeta conhecido como Terra por muito tempo. Certa vez fui atraído pelo cheiro de sangue inocente até um precário hospital. Ele ainda funciona, mesmo tendo governantes corruptos que desviam o dinheiro público quase que diariamente. Quando entrei naquele hospital vi que haviam poucos tubos de oxigênio para atender tantos pacientes e foi então que decidi desligá-los por um breve momento. Para isso precisei me materializar por alguns segundos e nesse curto intervalo de tempo acabei sendo visto por uma criança.

            Cinzento indagou:

            - Matou alguém apenas porque fostes identificado?

            Outro demônio também questionou:

            - Já fomos vistos diversas vezes em outros planetas e em razão disso somos temidos por onde passamos. Não há razão para atitudes tão covardes, pois somos superiores a tudo que existe na galáxia.

            Sirão continuou seu relato:

            - Não matei aquela criança só porque ela me viu. Matei-a porque ela falou comigo e suas palavras me afetaram bastante.

            - E o que um humano teria falado de tão grave para provocar a ira de um demônio?

            - Aquela criança me viu materializado na sua frente. Viu a minha verdadeira forma, um demônio de verdade bem a sua frente e, mesmo assim, não se aterrorizou e nem gritou por ajuda. Ela ensaiou um sorriso e disse: “Vocês devem ser bem tristes e sozinhos para fazerem isso.”

            As palavras de Sirão deixara todos em silêncio. Ninguém era capaz de dizer nada. Cinzento encarou Sirão por um breve momento e depois sorriu. Precisava dizer algo difícil naquele momento... Algo gentil:

            - Você fez muito bem, Sirão.

            Seu líder desativou seu campo de força e se aproximou de Sirão. Tocou em seu ombro e começou a lamber o rosto daquele pequeno monstro. Já se faziam vários séculos que Cinzento não demonstrava nenhum gesto de carinho para algum membro daquele grupo. Sirão tentava controlar sua ansiedade na medida em que seu líder ia lambendo seu rosto. Ele no fundo sabia que dificilmente teria outra oportunidade e não hesitou em perdê-la. Num rápido golpe de suas garras afiadas fez um corte fundo no rosto de seu líder e antes que Cinzento pudesse reagir desferiu mais dois golpes tão rápidos e poderosos que matara Cinzento antes mesmo de seu corpo cair no chão. E foi então que Sirão, numa covarde demonstração de carinho, se tornou o novo líder dos demônios.


Escrito por Marcio Chacon (07/06/2013).

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